terça-feira, 18 de janeiro de 2011

A tragédia de Sofia - Parte III

Algumas sensações são tão efêmeras. Por que? Me pergunto sempre isso em tardes de domingo porque a sensação de um domingo ordinário à tarde dura mais do que deveria. Já as melhores sensações passam antes que se possa capturá-las. Boas sensações são pássaros raros que voam livremente. São indescritíveis. Irreconhecíveis à primeira vista. Impressionantes. O difícil é lidar com o desejo louco de caçá-los. Torna-se um vício insalubre e obsessivo. Até que se percebe o absurdo das situações em que nos metemos em busca desses colibris sensoriais, rouxinóis e flamingos cantantes, cintilantes e que voam, voam e mais voam do que fazem. Por que? Porque o universo nos testa a capacidade de senti-lo para si mesmo. Ele se sente por meio de nós e nós ao experimentarmos essas sensações incríveis queremos mais. E o querer mais se torna alucinante porque é diferente de tudo o que se pode imaginar. Algumas sensações são comuns, embora ainda assim indescritíveis. Mas e a dor de sentir demais. O universo muitas vezes não nos ensina a lidar. E não se satisfaz. Fica nos provando, nos metendo em veias gigantes que jorram sentimentos. Párem o mundo que às vezes eu quero parar de sentir. Quanto mais o sentimos, o universo, mais aprendemos, claro, mas também mais longe ficamos da realidade material. E como lidar com as pessoas que só vivem a realidade material uma vez que atingimos picos sensoriais do universo? Fomos feitos para sentir. Mas alguns insistem em ser insensíveis. Bem-aventurados os que sentem, comem, apalpam, choram, gritam e tudo ao mesmo tempo, vivendo o intenso dos dois mundos.

A sensação da paternidade é uma daquelas comuns, mas ainda assim indescritíveis. Quando se vê o filho nascer todo o organismo vibra com intensidade singular. Mas eu não posso dar nenhum detalhe porque até agora só sei que vou ser pai, mas ainda não sou. Jane vai dar a luz em setembro. Filho da festa de reveillon e das promessas de um novo tempo que não se cansa de chegar a cada dia. Sem hipocrisia. Primeiro coito do ano, naquela atitude louca de que no primeiro dia do ano temos que ser capazes de fazer tudo o que não fizemos ao longo de todo o ano que acaba de acabar. Inclusive fazer um filho, como se todos os anos passados nós tivéssemos que ter feito um filho e não fizemos. Tudo tem mudado tanto em mim e nas pessoas.

A vida dela passava por altos e baixos. Um dia conhecia pessoas. Outro dia se sentia solitária. Com gosto amargo na boca. Passeava sempre em dias chuvosos em busca da paz. Eu disse a ela que se contentasse com paz, alguma paz, pois 'a' paz não se encontra porque não existe. Expliquei que tudo na vida é uma questão de expectativa, quanto menos se espera mais feliz se fica com o que se tem ou se consegue. De novo, tudo é uma questão de expectativa. Com seu guarda-chuva xadrez desbotado ela seguia buscando a paz em dias chuvosos. Eu como amigo da amiga e semi-amigo costumava dizer que ela era muito exigente com os homens. Pra quê, Jane? Precisava se expor mais a eles. Mas ela dizia que sempre que se expunha, sofria. Ela não compreendia que sofrer é importante e que é tão comum quanto respirar. Uma vez que se entende isso, perde-se o medo. Não que não ter medo nenhum seja de todo positivo. Não é. Não ter medo faz a pessoa não ter limite. E não ter limite leva a pessoa a se estrepar, embora eu ache estrepar-se e não ter limites coisas lindas e louváveis da vida. São poucos os que logram ser assim. Mas como tudo na vida, o bom é o equilíbrio e eu devo admoestar isso porque sou prudente comigo mesmo, com o mundo e com os sem limites que se estrepam. Imagine o mundo que seria se todo mundo rompesse o limite e se estrepasse. Seria sensacional, mas os verdadeiros e originais estrepadores fodedores de limites perderiam o espaço e o brilhantismo. Estrepar-se seria comum e aí o brilhantismo se desviaria pros imbecis que nunca se estrepam. O mundo ficaria virado, chato. Que coisa, Jane! E ela, Jane, era daquelas pessoas desequilibradas. Medo demais. Cautela demais. Dois sofrimentos e desilusões amorosas fizeram-na uma garota fria, arrogante, cínica e dissimulada. Daquelas que transam com qualquer um numa noite só pra se sentir gostosa. Mas na verdade finge a gozada e se apavora com a possibilidade de rever o parceiro. Isto é anti-amor. Isso é uma verdadeira tragédia.

Sofia era ao todo diferente. Uma pessoa de doçura incrível. Pronta pra vida e pra servir de instrumento sensorial ao universo. Aberta ao mundo, às pessoas e às sensações todas. Não era preciso romper barreiras para penetrá-la. E isso fez com que me identificasse, me apaixonasse e a admirasse. Sensação tremenda, devo confessar, é esta de conhecer uma pessoa como Sofia, entendê-la e saber que ela me entende. Nada como uma grande sensação de compreensão recíproca, embora muitas vezes discordante, descaracterizante, desconstrutiva e anulante. É, às vezes a gente se dava mal. Mas insisto, tudo isso representava aquela compreesão indescritível, mais uma vez, intraduzível e indiscutível. Não era necessário partir, brigar, discutir nem decidir. Bastava pensar para que o outro soubesse. Pra quê atos, palavras, articulações e insinuações quando se pode só sentir, pensar e ser compreendido?

Por isso que digo que Sofia era capaz de compreender o que acontecera com Jane. Eu só não sabia como fazer dali em diante. De um lado tinha a vida da vida. Do outro, a tragédia em pessoa carregando na barriga meu filho. Uma situação embaraçosa. Se pudesse fazer de conta que Jane não existisse ou nunca tivesse existido seria melhor. E mais, seria plenamente possível, se não estivesse com o meu filho. Mais trágico ainda pra ele. Ter uma mãe como Jane. Que sacanagem eu fiz com o jovem! Pra quê? Só pra começar o ano gozando.

O fato era que eu queria ficar com Sofia, casar-me com ela. Ficar pra sempre. Amar o amor com ela. Mas queria meu filho comigo. Conosco. Queria que o filho fosse meu e dela. Mas não era. Foi aí que tive uma brilhante ideia. Já que Sofia era elevada o suficiente e compreendia tudo. Estava tranquila com a situação. Sabia que tinhamos transado no primeiro dia do ano. Que eu era uma pessoa boa e escrupulosa. Que Jane era também. Pelo menos pra ela, Sofia, Jane era uma pessoa elevada. E de fato era. Eu só falei mal dela porque estava zangado. Zangado por ela ter aparecido na minha frente naquele dia e por termos feito um filho. Mas na verdade eu sabia que Jane era uma pessoa do bem, e a achava melhor quando lembrava do meu filho. Céus, ela tinha sido capaz de gerar um filho meu! Eu tinha que respeitá-la. Não só isso, tinha que admirá-la. E de fato o fiz e parei de achar ruim ela ter aparecido na minha frente naquele dia e ter feito um filho comigo. Claro, parei de achar ruim porque do jeito que a situação estava configurada, se não fosse ela, seria alguma outra, e poderíamos ter feito um filho do mesmo jeito, com a diferença que se fosse alguma outra a brilhante ideia que eu acabara de ter não se aplicaria. Eu tive a ideia de casar com as duas. Sim, porque deste modo eu ficava com Sofia, quem eu amava e por quem era amado, e com Jane, quem tinha o meu filho. Pra ele seria perfeito, teria um pai feliz e duas mães. Pra Sofia seria bom também porque Jane era sua melhor amiga e eu tinha certeza que ela amaria o meu filho com Jane. Pra Jane seria perfeito, ela teria a melhor amiga, o filho e um pai para seu filho. Minha ideia era perfeita. Depois eu faria mais vários filhos com Sofia e todos viveríamos felizes. 

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

O Cheiro do Verão

Paul Gauguin nutria uma paixão irrefreável por jovens mulheres. O desejo ardente por seus corpos, suas mentes e comportamentos era muito mais do que curiosidade. Era o motor de sua inspiração. Como disse certa vez ao pároco de Papeete ao censurar a suruba infinita que praticava em sua casa com selvagenzinhas: “se eu não fizer amor, não consigo pintar”. Vontade de sentir a presença jovem e irreverente. Ele tinha sido sério na juventude. Um homem recatado e pertencente à sociedade burguesa. Zelador dos bons modos e pai de família. Depois de certa idade convertera-se num artista consciente de suas limitações estéticas e experimentais e ansioso por ultrapassá-las com todas as forças.

Algo levemente parecido acontecia com Júlio. Um rapaz, não tão velho como Paul Gauguin aos 47 anos depois de voltar de uma viagem de auto-exploração e libertação pelo Taiti. Júlio havia sido um bom moço durante muito tempo. Recatado, conservador, respeitoso das moças e das verdades socialmente construídas e que serviam pra orientar a vida dos tolos e ignorantes sobre os próprios instintos e sensações. Júlio sentia-se finalmente livre para extrapolar os pontos de pausa e inflexão. Quem quer inflexionar perde tempo e não entende que grande parte da vida deve ser vivida sem essa pretensão dispendiosa. Não é tão radical quanto parece, tampouco como fiz parecer ao lembrar a história de Gauguin. Júlio só era um rapaz normal que finalmente, e que bom, tinha descoberto a irreverência e a leveza da vida instintiva e sensorial. Melhor pra ele que descobriu mais cedo do que muitos! O desapego custa caro e pra quem não nasce com ele é preciso fabricá-lo com as vísceras.

Aos 29 anos Júlio conheceu Amanda, de 16. Sua pele branca, limpa e macia o fazia lembrar do algodão e das nuvens. Seus olhos negros, grandes, ovulados e pentrantes o remetiam ao céu estrelado de uma noite de verão. Aquelas noites quentes de mormaço com um cheiro específico que incendeia o ar, que não deixa dormir. Os poros suam e sentimos o incenso que exala dos nossos corpos, atraindo-nos uns aos outros quase que obsessivamente, quase que como zumbis sedentos por carne. A essência das noites de verão, uma essência que paira no ar e queima lentamente exalando a fragrância da permissividade, da totalidade dos sentidos. O verão e Amanda eram muito semelhantes. Alvos, puros, suaves, com muita luz e brilho, e aquela atmosfera de calor envolvente, preguiçosa, em que todas as partes do seu corpo se tornam pontos potenciais de prazer. A exacerbação dos sentidos. Amanda era assim. Perfume do sol na terra com a delicadeza de mãos finas e moles. Cabelo liso e ruivo, longo. Contraste perfeito entre brancura da pele, vermelho do pelo, azul do céu e do mar, e o sol do verão nos trópicos.

Amanda era amiga da irmã de Júlio e tinha ido passar alguns dias do verão na casa de praia da família. Julio tivera dificuldades para comparecer ao encontro familiar devido a questões profissionais, mas na última hora foi capaz de administrar os compromissos e pôde descer a serra. Júlio já conhecia Amanda, amiga de longa data de sua irmã mais nova, Clara. Mas o primeiro olhar entre os dois no calor do litoral foi marcante. Amanda o penetrara. Fizera-o sentir-se invadido com os olhos flamejantes. Lindos, doces, meigos, mas perfurantes como pode ser uma viúva negra que seduz seu macho e o penetra com os tentáculos após a cópula. Não que Amanda tivesse esse aspecto lúgubre, mas os olhos eram muito belos e firmes ao mesmo tempo de modo a serem capazes de envolver e matar.

Amanda sempre o admirara, mas Júlio a tratara sempre como criança, amiguinha da irmã. Só que desta vez, os seios protuberantes e o fito que não desvia não permitiam mais a mesma atitude. Amanda subitamente se tornara mulher e Júlio ao vê-la assim, tão mudada e em tão pouco tempo, ficou desconcertado. O olhar sem timidez ou inocência o enlouqueceu. Júlio tinha especial admiração por mulheres ousadas e corajosas. Mulheres de inteligência superior eram aquelas que sabiam respeitar e dar vazão aos seus instintos. Isso em geral chamava muito a atenção de Júlio. A atitude invasiva, a pele delicada, a idade tenra ou recém possuída por sentidos e sentimentos graves, a condição de ninfeta amiga da irmã e da família, o sol, o cheiro do verão, o mar, tudo convergiu para que Júlio enlouquecesse e soubesse que este verão seria um dos mais marcantes.

Depois do encontro e de se acomodar, Júlio e as pessoas da casa foram dar um mergulho no mar. Já era quase noite, aquele momento em que o sol só é suficiente para iluminar e colorir as partes remotas do horizonte. Seu calor não aquece mais. A água morna fica azul escuro porque a luz não consegue mais atingir o fundo. Em trajes de banho Júlio pôde confirmar a transformação de Amanda. Uma coisa linda. E Amanda não mudava sua atitude. Sempre que Júlio a dirigia a palavra, Amanda o mirava no fundo dos olhos e não se desviava. Ela tinha a capacidade elástica de virar a cabeça para responder aos chamados de qualquer um sem tirar os olhos do fundo dos olhos de Júlio, que no começo se surpreendeu, depois encarou pensando que a moça logo sentiria pudores e desviaria o olhar, mas por fim estava novamente surpreso pela força e determinação do olhar de Amanda a ponto de ficar desorientado.

Após o jantar sentaram-se na varanda para observar o céu e conversar. Ele, sua irmã Clara e Amanda. As duas tinham se tornado mulheres. Falavam dos garotos com desenvoltura e conhecimento. Não se importavam com a presença de Júlio porque o julgavam velho demais para interferir e velho o suficiente para não se assustar com os assuntos moderadamente quentes. Clara tinha no irmão mais velho sua referência de liberdade e bom senso. Era sempre com ele que discutia e se aconselhava sobre questões amorosas, sexuais, filosóficas, cósmicas e profissionais. Para ela, o irmão tinha sempre as melhores avaliações, a opinião mais próxima da neutralidade e dizia frases que faziam muito mais do que resolver seus problemas, a faziam pensar profundamente, respirar e se motivar. Tudo o que Júlio dizia a irmã era algo como libertário, otimista e responsável. Clara sempre tivera consciência de que o melhor caminho era ser uma pessoa consciente e respeitosa dos limites seus, dos outros e do universo, exatamente na medida necessária para buscar superá-los, rompê-los, dilacerá-los, mastigar os limites e fazer deles um bagaço como se faz com o bagaço da cana. Isso graças ao pai e ao irmão, homens iluminados e com sensibilidade capaz de suprir o vácuo deixado pela ausência da mãe.

Amanda, por outro lado, havia se tornado uma garota muito inteligente. Adquirira excelentes referências culturais. Pôde conversar abertamente e em nível equilibrado com Júlio sobre os mais variados temas com base em importantes obras literárias, musicais, plásticas e cinematográficas. Amanda também demonstrara bom conhecimento em assuntos políticos. Basicamente, Amanda era uma mulher inteligente e excelente companhia para conversas de mesa, de bar, de praia, de jardim. Complemento e modelo perfeito para a irmã se inspirar.

Por volta de quatro horas da manhã, quando o assunto já se extendera em demasia e não havia mais o que ser dito, Clara quis se recolher.

  • Mas já, Clarinha?
  • Ah, já tô com sono.
  • E você Amanda? Se quiser pode ficar mais. Não precisa ter medo que não vou te morder escondido dela.
  • Não seja bobo, até parece que tenho medo de ficar sozinha com você.
  • Então tá gente, vou pra cama, boa noite.
  • Boa noite.
  • Boa noite.

Júlio e Amanda ficaram enfim sozinhos. Durante cinco minutos não disseram nada. Amanda ficou finalmente nervosa, podia-se notar pelo movimento de vai e vem frenético dos dedos dos pés e as mãos que não encontravam lugar confortável para repousar. De repente, Amanda pousou sobre Júlio os seus grandes olhos negros e respirou fundo num gesto sincero para despistar a tensão absurda que experimentava. Júlio começou a rir, puxou-a pelo braço e a beijou. Ele precisava dessa vitória. Precisava entregar a sua vaidade o troféu de vê-la desconcertada. Não era possível uma garotinha de 16 anos deixá-lo em transe e se manter para sempre no pedestal com os olhos vigorosos e imutavelmente firmes.

Foi o beijo mais doce que experimentara desde muito tempo. Amanda tinha lábios finos. Gosto de amora fresca na boca. Sua pele era tão frágil que qualquer movimento razoavelmente forte podia machucá-la. A barba de Júlio de um dia por fazer fustigava o rosto de Amanda, que nunca beijara um homem com barba, e isso fazia do beijo uma fricção de lábios, bocas, bochechas e línguas delicada e empolgante. Que diversão, Júlio, era passar e passear sua boca e rosto pela boca e rosto de Amanda! Ela estava curiosa. Percorria o corpo do homem com a mesma paixão e sentido explorador com que fazia com a boca na boca de Júlio. O beijo era suave, mas rapidamente Amanda ganhou confiança e começou a tatear com as mãos pequeninas de unhas mal-feitas o corpo do homem que sempre sonhara ser seu. Na intimidade, lembrou do amor que nutrira por toda sua infância por aquele moço mais velho e bonito que dava muita atenção a irmã e a ela quando iam brincar. Júlio as levava para passear no shopping, para tomar sorvete, para tomar banho de piscina. Júlio era para Clara o irmão perfeito e para Amanda, mesmo desde criança, o homem perfeito.

Após alguns beijos desses que duram períodos de finitude incomensurável, Júlio se sentiu mal, disse para Amanda que era hora de dormir e se retirou. Era como se ele estivesse violando algum dogma sagrado. Algum limite entre o possível e o impossível. Seu corpo respondera aos estímulos fornecidos por Amanda, mas a mente não queria permitir. Mente ainda atrasada, Júlio! Presa ao passado retórico de um jovem travado. Júlia ainda não estava totalmente livre daquele monstro que amarrava e açoitava seus instintos e emoções mais genuínos. Não se permitia. Amanda tinha acabado de completar dezesseis anos. Provavelmente ainda era virgem. Ele, com seus 29 anos, já fora casado, tivera em sua vida mulheres de todos os tipos. Conhecia bem a alma feminina, inclusive as jovens puras, doces e invioladas, mas quando as tivera também era um jovem. Agora, com a experiência que acumulara se sentia um lesador. Era como jogar sujo num carteado. Sabia as cartas de todos na mesa e conhecia o resultado da rodada. Não tinha o que fazer a não ser aproveitar da situação e extrair o frescor e a pureza de Amanda. Mas sabia que isso geraria resultados indesejados. Amanda já o amava com todas as forças. E o amaria mais ainda após ser por ele deflorada. Júlio era um dilema.

Para ele era como voltar ao passado. Rejuvenescer. Lembrou-se dos tenros dezesseis anos. Cheio de sonhos. Com romances e amores infinitos. Como fora linda sua adolescência com as garotinhas frescas. Neste momento não se sentia mal porque estava em pé de igualdade. Eram todos jovens, belos, doces, desenvolvendo-se. Agora ele se sentia um intruso. Amanda deveria experimentar aquilo com um rapaz da sua idade. Ou não, ou talvez fosse uma garota abençoada que poderia ter o privilégio de descobrir o sabor do verão com um homem mais maduro e consciente. Mas o dever ser não é ser de fato. Sentimentos contraditórios gritavam na cabeça. Amanda não gostava dos moleques. A irmã certa vez comentara que ela nunca observava os amiguinhos do colégio, mas seus pais e tios ao levá-los e buscá-los das aulas e festinhas. Júlio dormiu toda a manhã. Levantou-se para almoçar e não teve coragem para mirar nos olhos de Amanda.

Foi deitar-se novamente após a refeição e em seguida Amanda entrou no seu quarto, olhando-o profundamente nos olhos, no melhor estilo menina ousada que ela desde então sabia fazer tão bem.

  • Onde está Clara?
  • Fica tranquilo, ela tá dormindo no nosso quarto.
  • Amanda, o que você quer? A hora que eu for ao mar chamo vocês.
  • Não quero ir ao mar. Quero mais do mesmo de ontem.
  • Amanda, é melhor não. Não tem nada a ver. Eu sou muito velho pra você. Você precisa encontrar alguém que também esteja se descobrindo como você. Tem que ser recíproco.
  • Eu não tenho paciência para esses moleques. Eu quero um homem como você.
  • Mas Amanda, não tem nada a ver.
  • Tem sim. Eu sei que tem e sei que você também me quer. Quero que você seja meu primeiro homem de verdade.

Neste momento Júlio teve calafrios e imaginou como seria. Lindo. Uma ode à vida. Um retorno ao frescor da mocidade que não volta nunca mais. Um glorioso momento de anulação do tempo. A repetição do irrepetível. Uma reexperimentação do que já passou e se tornou arquivo velho da memória. Júlio a abraçou e a beijou longamente. Disse que não poderia fazer isso. Que seria injusto e desleal com ela. Amanda trancou a porta e tirou o vestido. Ficou nua em pelo. Júlio delirou ao ver aquele corpo perfeito, liso, magro, cintura fina, nenhuma marca, os seios do tamanho uma maçã, com a pele preservada do sol, mais macia e mais suave do que qualquer outra parte de pele do corpo. Era branca e brilhava, tinha algumas pintas que se espalhavam aleatoriamente fazendo a decoração daquele cômodo de doçura. Pareciam pinicadas de pincel feitas por alguém que ria e se divertia demais com aquilo. Uma brincadeira de pincelar no corpo feito de tela. Se Júlio fosse pintor ele faria ali sua obra-prima.

Ela veio lentamente. Deitou-se sobre ele, envolveu-o com os braços e começou a beijá-lo. Júlio estava inerte. Sua mente o censurava violentamente, pedia para que reagisse e impedisse o inevitável. O corpo, mais consciente da força irresistível do cosmos, não permitia reação. Gozava e se deliciava com o momento de esplendor máximo. Logo estava despido. Despediu-se do desperdício de energia que era ir contra o que não se pode lutar. Beijou todo o corpo de Amanda como quem faz um ritual sagrado de homenagem a todos os deuses do universo. Foi equilibrado e justo com todos os pedacinhos dela. Nenhuma parte ficou desassistida. Amanda fervia e se contorcia. Sua pele branca foi se tornando vermelha à medida que os beijos impudicos avançavam.

Quando se deu conta de que Júlio finalmente aceitara sua missão inevitável e passara a amá-la sem os entraves da razão, Amanda teve certeza de que aquele era o homem que sempre quisera ter e se sentiu pela primeira vez mulher. Quando o fio da meada é encontrado nada pode parar quem o detem. E assim que se sentiram Júlio e Amanda. Ele viu novamente a juventude. Lembrou dos banhos frescos de cachoeira da infância e adolescência. Dos mergulhos de mar nas noites quentes de verão. Das ameixas roxinhas, doces e frescas que costuma comer pela manhã. Que delícia essas frutinhas frescas com caldo dentro. Que soltam o licor ao serem mordidas. Ameixa, amora, cereja. Banho de chuva na grama da casa. Primeiro beijo com gosto de balinha de hortelã. Ela viu os futuros filhos. Sentiu-se capaz de fazer o que quisesse do mundo e no mundo e de amamentar. Sentiu o conforto e a segurança que o cheiro de homem de verdade lhe inspiravam. Sentiu-se forte como uma rocha ao ser penetrada por aquele homem grande, forte, de pele morena, cabelos lisos e negros e olhos profundos como os seus. O êxtase foi tão pleno que não sentiu dor. Sentia-se totalmente à vontade, relaxada, confiante, segura, acolhida, amada. O gozo não foi contável porque foi permanente. A cada movimento, a cada beijo, a cada carícia, gozava. E ele também.

Dormiram tão profundamente que não ouviram Clara os procurando pela casa. Por fim foi ao quarto do irmão, tentou entrar, mas estava trancada, achou estranho porque ele nunca a trancava. Bateu várias vezes, mas não teve resposta. O pai e a esposa já haviam ido ao mar e os esperavam. Então resolveu dar a volta pelo jardim e entrar pela janela. Gritou ao ver os dois dormindo. Não reagiram. Clara não compreendeu o que acontecia. Tentou acordá-los, mas não se mexiam. Estavam com sorrisos de plenitude. Foram empalhados no momento de êxtase máximo. Transcenderam as esferas da carne e da razão. Clara não conseguiu mais animá-los. Superaram para sempre a verdade do finito e foram viver na luz, juntos, gozando. A posição e o sorriso de satisfação eram tão impressionantes que foram enterrados juntos, entrelaçados, fundidos. E no epitáfio do casal se inscreveu: “Que descansem em gozo e sejam abençoados pelos deuses tutelares das intempestividades aqueles que descobriram o gozo eterno!”.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Isabela e o medo do vazio

Algo impressionante em nós, pessoas, é a capacidade que temos de viver sensações passageiras. Às vezes vivemos momentos tão bons que não queremos repeti-los com medo. Um medo de algo inexplicável que se torna estúpido. Medo da dor ou do vazio que decorre. Mas que dor se ela só existe na fértil imaginação humana que pode fazê-la cessar da mesma maneira que a inicia. Por outro lado, há também aquelas pessoas que se tornam caçadoras desses pequenos e efêmeros momentos de glória. Obsessivas e destemidas. Perdem-se no tempo e no espaço buscando eternamente o inexplicável e o inatingível pra quem procura e espera com afinco. Isto porque esses momentos e sensações são assim, fáceis e imprevisíveis. Inesperados. Viram-te e desviram-te com desapego pela massa abstrata. Pra que aconteçam tudo depende das suas expectativas. Quanto mais você as tiver, mais dificilmente eles, os momentos de sensação extrema, virão. Por isso que o importante é o equilíbrio e uniões que satisfaçam esta necessidade do universo e de umas pessoas com outras. Acho que já entendi tanto que não espero mais nada de nada nem de ninguém.

Alguém que conheceu este medo do amor desconhecido é Tomás, o destemido desta história que vou contar agora. Isto foi uma conversa que ele teve com Isabela no primeiro encontro forçado após uma noite de descoberta entre os dois. Isabela é a prudente e reprimida, queria fugir de tudo e viver no seu mundinho protegido por grades contra caçadores de rã. Já se arriscara duas vezes na vida e isso era suficiente. Não aceitava ser trocada. Não aceitava ser colocada em situação hierarquicamente inferior em beleza, desenvoltura, simpatia, inteligência e capacidade de divertir seus amados. A simples ideia de ser descartada por alguém ‘melhor’ a causava um desespero agudo observável somente em pessoas de extremo descontrole. Mas mesmo assim Tomás não perdeu o vigor de perseguir seu desejo porque tinha certeza da sua força. Não se entregou às negativas e às omissões. Depois de nada saber, partiu em busca de respostas que o satisfizessem. Queria olhar nos olhos de Isabela e saber se a noite que passaram juntos, no primeiro dia do ano, não havia significado nada. Se isso acontecesse, ele perderia toda a crença na intuição, na capacidade mágica de ser e de sentir, de saber pelo pensamento e pela movimentação das energias. Não era possível. Tamanha intensidade, tamanha conjunção de fatores e encontros fortuitos que antecederam a grande noite não poderiam ser em vão.

-        Foi tão bom ontem à noite.
-        Foi.
-        Por que você não responde minhas mensagens? Por que você não me atende?
-        Porque não quero nada com você.
-        Mas é mentira.
-        É mentira mesmo.
-        Então por quê?
-        Porque tenho medo, não quero me envolver, tenho outros objetivos no momento.
-        Não parecia isso ontem à noite.
-        Ontem à noite eu esqueci de tudo.
-        Mas esquecer de tudo se for assim é bom. Esquece de tudo pra sempre. Sua vida é uma merda se você só faz o que te faz bem quando esquece de tudo.
-        Talvez minha vida seja mesmo uma merda.
-        Então vamos tratar de melhorá-la já.
-        Não sei se quero. Tenho medo de mudanças. Tenho medo do desconhecido.
-        Mas não pode ser assim. Você não pode ser tão medíocre e absurda. Eu não me apaixonaria por alguém que tem essas ideias.
-        Você invadiu meu espaço e está me idealizando.
-        Você me abriu o espaço.
-        Abri, mas era primeiro dia do ano. Eu estava zonza de champagne. Você é bonito e atraente, eu não queria estar sozinha, e aí foi fácil não resistir.
-        Eu não concordo. Não foi só isso. Nós sabemos que não foi isso. Você acha que eu perderia meu tempo me impressionando com uma atitude patética e insensata como esta. Eu não tenho mais idade pra tolices. Eu sei quando acontece só uma noite e quando acontece algo mais. A energia que se movimenta não deixa mentir.
-        Mas eu tenho tanto a fazer. Não tenho tempo. Me deixa.
-        Quem não tem tempo pra si mesmo tá perdido. É preciso reencontrar o caminho.
-        Vai embora. Me deixa. Por favor.
-        Não posso.
-        Você deve.
-        Dever não é querer, nem poder.
-        Não quero, não posso. Isso não pode ficar assim.
-        Como vai ficar então?
-        Não sei.
-        Tudo se resolve num diálogo?
-        Nossas vidas se resolvem com o diálogo. Tudo pode dar certo. Um com o outro e tudo pode ser melhor.
-        Eu tenho muito medo de sofrer. Já sou escaldada.
-        Isso não é argumento. É preciso levar banhos de água fria infinitamente para que compreendamos. Não podemos viver pela metade com medo de banhos de água fria. Vai fundo, mete o pé, chuta a porta, deixa acontecer e vê o que vai ser. Não força a barra, nem pra acontecer o que não é e nem pra frear o que é. É só deixar ir e assim sempre saberemos. Não existe sofrimento infinito. Existem sofrimentos infinitos, mas nunca é o mesmo. Todos começam e terminam, como todos os seres e ciclos do universo.
-        Você está forçando a barra agora pra ser. Se bem que o que você diz faz sentido, mas é tão difícil acreditar. Você fala bonito. É corajoso. Você envolve. E é disso que eu tenho medo. Os mais envolventes, atraentes, brilhantes e corajosos são os mais suscetíveis aos sabores da espontaneidade. Nunca saberei quando vai se cansar de mim e arrumar outra. Já vi este filme. Quero o bom moço, estável, comum, confiável. E não um romântico louco, com rostinho bonitinho, elegante, cheiroso, pinta de don juan e cheio de histórias bonitas.
-        Mas e a paixão da vida, a emoção? Você vai se entediar. Prefiro viver mil amores intensos a um insosso.
-        Será mesmo?
-        Como vou saber se não experimentar?
-        Experimentando algumas poucas vezes.
-        Não, nem mil vezes são suficientes pra saber se a milésima primeira não seria a experiência definitiva. As pessoas às vezes se apaixonam pra sempre, por mais volúvel que um homem destemido, livre e suscetível aos sabores da espontaneidade possa ser.
-        Eu acho que já experimentei o suficiente.
-        Não me experimentou.
-        Eu sei como você é.
-        Não sabe.
-        Sei sim. Sei até que você é capaz de me surpreender constantemente. Sei que é capaz de me satisfazer. Sei que é capaz de me divertir. Sei que é capaz de me manter brilhante e estimulada. Sei que é capaz de sempre me provocar com sagacidade. Sei que é um bom amante, sempre disposto e atencioso. E sei também que por ser assim é plenamente capaz de um dia eu não ser mais suficiente e você encontrar outro alguém que te apresente novas questões a serem vividas.
-        Pra quê essa insegurança toda? Isso só te leva a desperdiçar a vida. Isso só te leva a repelir as pessoas boas e que buscam a evolução. Talvez esta seja uma das suas últimas chances. Não faça isso, por favor. Você tem muito brilho e doçura pra se amargar assim. Eu sei. Eu sinto. Minha intuição grita com força. Ela não se engana, não com tanta veemência. Ou você acha que eu faria todo este esforço caso você fosse a pessoa tola que finge ser? Você não é assim. Seja autêntica. Seja o que você é. Deixa acontecer. Deixa ser. Deixa estar.
-        Me deixa em paz, por favor.
-        Não vou. Se você realmente quer que eu te deixe, você vai ter que me experimentar e fazer com que eu me canse de você, como você acabou de dizer. Quero que minha espontaneidade imprevisível incida e que eu conheça outra pessoa melhor que você pra eu te abandonar. Enquanto isso não acontecer, não posso te deixar porque você é a pessoa que eu quero. Você precisa entender que se eu encontrar outra pessoa e te deixar por ela, vai ser porque o tempo terminou e outro ciclo vai iniciar. O que é natural. Acontece. Coisas começam e terminam, e é sempre assim. E talvez eu sirva pra você entender exatamente isso. Pra nós vivermos o máximo por algum tempo e depois tudo acabar. Pra começar outros momentos máximos. E assim sempre. Ou não. Ou eu sirvo pra viver com você a sensação máxima pra sempre e pronto. Quem pode saber se não nós dois e os dias?
-        E eu vou fazer o que o coração mandar? E assim tudo vai ficar mais fácil? Tudo mais leve? Tudo mais fluido?
-        Isso. E é fácil. Acredite em mim, por favor.
-        Ficar com você é tudo o que eu mais preciso agora. E talvez justamente por isso eu não sei como lidar e bloqueio. É incrível observar o poder do pensamento e de como eu venho te visualizando há algum tempo. Eu sonhei com você todas as noites e dias, acordada ou dormindo. Intencionalmente ou não. E você era assim. Este rosto. Essa textura de pele. Essa doçura no agir, no beijar, no abraçar. E você apareceu assim. Inesperadamente. No penúltimo dia do ano. E depois de novo no último dia do ano, da mesma maneira inesperada e sem sentido. E eu desde a primeira vez que te vi já sabia que era você, mas como nada acontecia eu duvidei. Fiquei ansiosa. Até que você me disse que estaria na mesma festa de reveillón que eu. Quando cheguei procurei você por todos os lados. Andei todo o salão. A parte externa. O pátio. Não vi você, não vi seus amigos. Até que quando eu bebia vodka pura pra esquecer pensando que você já poderia ter saído com outra ou que poderia nem ter ido por conta dessas forças cretinas do acaso e do universo que também não é perfeito, você me abraça pelas costas, me vira, olha fundo nos olhos e me beija enquanto eu ficava paralisada de surpresa e de incredulidade.
-        Aí depois daquele beijo louco e que esclareceu todo o universo em 10 minutos você me pergunta se eu não deveria ter pedido um beijo antes. E eu digo que beijo não se pede, se beija.
-        E pronto.
-        Pronto. Da mesma maneira que você sempre soube, desde aquele encontro maluco do dia trinta, eu também. E tive mais certeza ainda no encontro do dia trinta e um.
-        Mas é exatamente isso que me assusta. Foram dois encontros malucos, paralisantes, mágicos. É coisa demais pra um coração pequeno.
-        Mas nós temos grandes corações. E se não tivermos, vamos ter a partir de agora. Você só precisa abri-lo para mim.

Sem dizer mais nada Isabela o abraça forte, chora em seu ombro, pede desculpas por saber que muita alegria faz também sofrer e por deixar que isso a impeça de viver mais além, pede seu coração em troca de todo o amor do mundo e desabrocha como a mais bela flor de Amarílis.

Os dois dançaram naquela tarde quente de domingo, segundo dia do ano, com uma chuva de manga, típica do intenso verão tropical. Um brinde aos dois. Dançaram à vida porque entenderam que ela deve ser assim, a experiência sensorial do universo sobre si mesmo. E é isso que somos, somente. Pedaços sensoriais para que o universo possa sentir a si mesmo e a todos os deslumbramentos que ele oferece.

Consumaram o amor e dormiram abraçados. E no outro dia, Tomás, sentindo a plenitude do objetivo alcançado, estufou o peito, vestiu-se silenciosamente e foi embora sem nada dizer. Junto com o amor, a tragédia se consumara porque dificilmente eles existem separados.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

A Tragédia de Sofia - II

A mulher mais impressionante da história. Coisas que homens comuns não conseguem entender. Elas possuem a beleza ímpar de seres iluminados, daqueles que nunca passam despercebidos pela história. Os dias a sua volta são sempre envolvidos por uma luminosidade singular, um sépia distorcido e que se colore no ponto exato da beleza que só existe no mundo encantado. Como um quadro ou uma fotografia retocada de Jan Saudek. A vida perto desses seres parece um filme rodado no campo em cenas de longas projeções em que a beleza fotográfica satisfaz qualquer necessidade de enredo. O enredo é a vida em si, suas várias cores, ou as várias cores que somente seres iluminados ou os seres abençoados por viver próximos aos iluminados conseguem ver. Eu não sei se vejo isso todos os dias, mas quando estou com Sofia ou com Jane posso.

Em dados momentos o turbilhão de pensamentos insensíveis embaça a visão. O discernimento se torna falho. E é nesses momentos, de visão turva ou de iluminação solar intensa, como sofreu Mersault de Camus ao matar o árabe, que indivíduos abençoados renegam a sorte que lhes foi concedida e caem em tragédia. É preciso muita força para sucumbir e quebrar o ciclo de predileção dos deuses tutelares das intempestividades. Mas uma vez isto feito, é difícil retroceder. O sujeito antes abençoado se distancia brutalmente dos seres iluminados e da vida feliz da luminosidade multicolorida. As cores não mais se diferenciam com tanta nitidez. A evidência falha. Tudo é e não é mais ao mesmo tempo numa sucessão invencível à pequenez da razão humana.

E foi assim que me vi ao saber da gravidez de Jane. Soluçante, temeroso de que meus dias plenos tivessem acabado. O absoluto poderia até não terminar, mas seria outro, outra forma, outras cores nos dias, outros seres iluminados a me inebriar. O ciclo se rompera definitivamente. O gosto de gostar dos outros e de viver de sua luz era uma plenitude encerrada. Tinha que descobrir novas maneiras de tocar o barco.

  • O que você acha disso?
  • Eu tenho mesmo que achar algo? Não posso só passar o tempo e esperar ver.
  • Pode. Mas assim é fácil.
  • E eu quero que seja fácil.
  • Sofia já sabe?
  • Deve saber. Não falei, mas ela sabe. Ela é uma ponta sensorial do universo.
  • O braço que serve pro universo sentir toda a beleza que ele é?
  • Aham.
  • Mas um dia teremos que verbalizar isso e tomar ações práticas.
  • Ou não.
  • Não?
  • Não. Podemos só deixar as coisas acontecer. Sofia vai saber fazer o melhor a ser feito, como ela sempre sabe.
  • Eu sinto ciúmes quando você fala assim dela.
  • Será que sente? Não seria vontade de ser ela?
  • Talvez. Tudo se confunde. Antes de ficar com você era tudo muito simples.
  • Por isso que ficamos, pra destruir nossa paz, fabricar tragédias.
  • Mas esta tragédia é viva, traz vida.
  • Porque somos seres iluminados. Ou pelo menos o são você e Sofia. O terceiro elemento,o aglutinador, que sou eu, é quem desalinha a iluminação.
  • Você é o causador da tragédia.
  • Ninguém pode ser culpado, apontado, julgado e condenado por amar. O amor nunca causa tragédia. Causa vida. Vida, vida e mais vida.
  • Mas pode também trazer muita dor, sofrimento e morte.
  • Aí não é amor. É qualquer outra coisa.
  • Qualquer outra coisa que não se sabe?
  • Que não se sabe. Preciso de água por favor.

Não corri pra avisar Sofia. Eu sabia que ela sabia. Que sempre soubera. O meu filho não poderia ser dela, embora nos amássemos como o vento ama as árvores ao contemplá-las com beijos e brisas suaves no entardecer. O amor tem dessas coisas. Muitas vezes ele anula. Ou muitas vezes ele é tão grande que transborda e pessoas em volta acabam recebendo-o. Como Jane recebera o transbordamento do amor meu e da Sofia. Muito amor não cabe em duas pessoas.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

A Estiva

Diariamente acordava às 4 horas para comer seu bolo frio e seco com café quente e doce. A vida amarga o fazia pensar nas pessoas. Isso bastava para aquecer o coração. O modo sombrio, frio e vazio como via sua existência não se assemelhava ao modo como via a dos outros. Bastava a vida de amarga e fria, o café que fosse doce e quente. Seu trabalho manual, violento e bruto o fazia pensar nas coisas. Ele preferia assim, não queria gastar sua imaginação e sensibilidade com planilhas, relatórios e escritórios engravatados. Melhor fosse a jornada de 12 horas sob sol de 40 graus no cais do porto estivando madeira, aço, ferro-gusa, carvão, toneladas de brinquedos chineses. Porque assim pelo menos ele pensava em outras coisas. Mais profundas. Mais sofisticadas. Mais emocionantes do que pensar em como fazer o que deve ser feito. Quis ser ator um dia, por ser forte, mas não foi capaz. Era introspectivo demais. Uma abundância de sentimentos incapaz de ser externada. Vivendo sob uma caixa-preta blindada junto com anseios humildes e despretensiosos. O estivador não pára pra pensar porque ele não pára de pensar. Os dedos exprimem a arrogância de homens distantes. Ninguém os quer a não ser para trabalhar e morrer. Mas o estivador quer pensar, humildemente, no vazio dos contêineres que carrega. A única coisa capaz de salvá-lo é o céu quando manda chuva. Porque o trabalho precisa ser interrompido caso a carga seja doce e possa derreter. O coração do estivador é doce, mas não derrete como açúcar em chuva e pessoas feitas de açúcar quando tomam chuva. O estivador carrega nos braços a globalização. O comércio que não é pra ele, não é feito por ele, e não faz nada pra ele porque está muito ocupado em fazer a si mesmo. O estivador quando pensou nisso realmente não entendeu por que pessoas que moram do outro lado do mundo precisam comprar brinquedos ou alface ou ferro ou terra ou comida de pessoas que moram perto dele. As pessoas deveriam viver com o que têm ao seu alcance, em vez de mandar trazer para elas de navio. Ele não entendeu como uma moda pode subverter tanto a capacidade cognitiva humana e fazer esta raça perseguir o fundo do poço com tanta avidez. O estivador não faz nada com sede ou pressa. Pra ele o tempo é infinito e ele nem mesmo se preocupa em estimá-lo, acelerá-lo ou querer coisas que nele se apresentem no futuro. O futuro é o mesmo passado. O presente é a única coisa diferente que ele tem porque é quando ele pensa. Quando pensa ele faz. Mas faz tudo igual. Tudo de novo. E quando ele pensa que fez tudo igual tudo se torna passado, e por isso é tudo igual. E se ele pensa que vai fazer diferente, então é futuro, e no futuro as coisas são como no passado. Não dá para saber como o estivador organiza estes conflitos temporais. Desconhece estratégias para enganar o tempo e enganar a si mesmo como bloqueador solar. Se o dia acaba, ele vai pra casa dormir. Um pedaço de chão com algumas espumas, parede verde-piscina desbotada e rabiscada pelo tempo que insiste em ser o mesmo no passado e no futuro. Um copo, um fogareiro, uma xícara sem píres, uma colher pequena e outra grande. Um prato de esmalte branco com o fundo raspado, evidência grotesca das suas alimentações. Cinco corotes de aguardente. Um pote de metal que é usado como panela. O estivador não precisa de mais do que isso para viver e continuar estivando até o homem terminar sua peregrinação ao fundo do poço.

domingo, 5 de dezembro de 2010

A Tragédia de Sofia - I

Conhecia Sofia desde sempre. Um espírito elevado que passava por mim nos momentos de crescimento. Era uma espécie de ser imprescindível para toda a minha existência, apesar das centenas de incompatibilidades que variavam da ideologia à escatologia. Eu tinha comigo que Sofia não sabia da sua importância, mesmo que fizesse de tudo para compreender.

As marcas das suas mãos pequenas eram simbólicas. Tinham tocado muitas partes de um mundo confuso deixado para trás em buscas imprudentes por redenção. Imprudência e displicência. Essas seriam duas boas palavras para descrever os arroubos de juventude da Sofia que sempre estava comigo, em mim e sobre mim. Eu precisava dela como preciso da água, para tomar muitos goles dela ao longo do dia e sentir o poder daquele líquido que desgruda as entranhas quando desce, insosso, mas vigoroso de energia.

Sofia oscilou durante toda a vida. Durante toda a nossa vida. Me aconselhou, odiou, espancou, proibiu, julgou e condenou de acordo mais com seu humor do que com meus atos. E eu, suscetível, sempre me submeti. De qualquer forma, eu gostaria muito que ela fosse capaz de se ver quando ficava irritada. O quanto isso parecia sublime. Beleza angelical e caótica. A estética da destruição plena. O sabor do saber impudico. Aquele saber saboroso que só serve pra prover o carnal. Sei que tenho que fazer alguma coisa sobre isso. A estética da progressão dos ventos, dos tempos, das tormentas do mar, do ser, do dizer, do viver e acreditar que a matéria pode se fundir, tudo junto, na fusão incessante da verdade que não importa porque não está escrita e nunca estará.

Ela sempre me dizia que preferia a maresia ao calor do sol. Eu sou do fogo, diferente. Gosto da queimação do calor. Embora as anulações auto-impostas tenham me levado a um caminho muito distinto daquele traçado inicialmente. Quando penso no passado sinto a dor de ter vivido outras muitas vidas que não eram minhas. Retomar as rédeas do tempo é o resultado, a implicação máxima de um exercício de disciplina que precisa ser praticado constantemente, mas não com obsessão, que é como sempre faço as coisas, mas com serenidade, que é como começo a visualizar para as coisas. Por isso sempre precisei e preciso da Sofia, serena e pacífica em sua irredutibilidade e cólera passageira.

Nossos caminhos entremeados de desafetos, descaminhos e ilusão foram pavimentados com desencontros que poderiam se traduzir em formas de gelo rachadas, daquelas que só percebemos o buraco quando já se está vazio. A pedra não se solidifica porque vaza enquanto a água encontra seu verdadeiro destino condicionada pela baixa temperatura. Quero saber do próximo passo, do próximo dia, da próxima estação e da próxima temperatura. Será que saberemos considerar os dias. Separá-los entre aqueles que importam e aqueles que não. Aqueles em que suamos de verdade a água ingerida com sede ou aqueles em que mentimos. Sofia sabe quando saberá saber dos dias. Mas não sabe hoje. Não sabe saber porque sabe que não pode. Ou sabe que não quer e que não deve. Mas o dever ser é insuficiente pro querer. Porque o querer ser não sossega nunca. Enquanto o dever ser nunca é, porque o que deve ser é uma ilusão que não sai de dentro. O que sai de dentro é sempre o que é e que está mais próximo do que se quer ser. Doído.

Rasgar a regularidade e a constância do sol surgindo no horizonte é tão doído quanto rasgar a carne, todas as pequenas e singulares vezes. Eu rasgo porque Sofia me pede para não deixar pedra sobre pedra. É assim que ela quer e prefere que seja. Mas somos grandes amigos, pondero. Por isso mesmo, ela insiste na segurança que se não tiver, ao menos finge bem ter. Eu quero Sofia comigo, em mim e sobre mim porque eu sempre quis e precisei dela. Seja como existência vaga, seja como pessoa querida e próxima, seja como títere do caos, seja como sustentáculo da leveza, seja como artífice de discussões teimosas, infundadas e de intelectualidade dúbia, seja como mulher, mãe dos meus filhos, guardiã dos meus templos secretos, restauradora dos meus e dos dela momentos de indecisão e aflição. Porque mãos pequenas e delicadas fazem grandes estátuas de bronze para adornar o portal da existência.

A tragédia reside no não saber ser. No não saber estar. Como dizia Eric mais um, “ser é diferente de estar, é preciso saber existir”, porque os deuses não perdoam a reticência. Mesmo que gastar horas olhando para o teto ao som do vazio não seja uma atitude reticente, há outras que fazem a coisa se tornar imperdoável. O caixeiro-viajante chega destemido e desce na estação fria da madrugada. Sozinho em busca de uma pensão que o abrigue. A tragédia é não haver abrigo. A tragédia é não saber buscar abrigo. A tragédia é não haver quem abrigue. Porque todos somos seres que abrigam e somo abrigados. Quem não consegue abrigo quando precisa não é um ser, porque não sabe estar, nem ser, nem existir.

Sofia chega a minha casa por volta das 5 horas da manhã. Diz que dói estar assim. Que não está sabendo estar como se é. Que precisa providenciar as malas e partir. Ir para um lugar onde ela saiba ser e estar e existir. E que para ela, este lugar está em mim. Mas ela pede, desta vez sem mandar, sem gritar, sem brigar, sem lutar e me espancar, sem sua típica petulância de pequena criança mimada. A transformação parece incrível. Me ardem os olhos quando vejo a humildade sincera finalmente brilhar. Aquilo catalisa partículas na corrente sanguínea e explodo. Quero que ela entre em mim e fique, protegida, segura, me restaurando por dentro e fazendo a decoração com flores roxas, vermelhas, amarelas e lilases, estátuas de bronze que só suas mãos pequenas podem fazer. Que ela pinte a história do universo em minhas entranhas. Que ela arrefeça o calor do coração febril com seus sopros de leveza e suavidade. Que o ente idealizado não se perca entre os descaminhos do ente real. Que eles se unam e se entendam pra fazer um todo bonito e harmonioso. Que os beijos sejam ternos e causem arrepios. Porque se arrepiar é bom. Como é bom.

Ela fica, a confusão se instaura, os pássaros lamuriam, a música só consegue ser tocada numa nota só. Mas é assim, são dias de suspensão. Dias sem saber e sem querer saber o que fazer. O dever ser e dever fazer tenta se impor. Mas percebo a maturidade suficiente pra não deixar isso acontecer. Tenho finalmente alguma maturidade que, por menor que seja, já é suficiente pra não deixar o dever ser e o dever fazer se impor. Que seja como for. Trágico ou não. Sustentável ou não. Consciente de que existe um universo infinito e em desencanto entre essas opções extremas do ser ou não ser. Tragédia é viver sob maus auspícios.

E se tudo parecia configurado, a insensatez emerge como uma baleia ansiosa para respirar, grande, volumosa, cerimoniosa, ritualística e irrefreável. E ainda bate sua cauda para mover grande volume de água e inundar barcaças, homens e corações. O mar sempre cobra o preço de ser a fonte de tudo. Seja da desgraça ou da plenitude. Envia a insensatez para lamber os dias e causar desapego. Eu vivo e vejo. Isso me comove. Isso me define. Isso faz qualquer um ser o que é. E cometer os erros que comete.

Sofia era próxima de Jane. Jane sabia tudo de Sofia, que sabia tudo de mim, embora Jane só soubesse pouco de mim, mas bastante de Sofia e o suficiente pra atiçar o desejo. Saber é poder criar, mas também poder destruir. Jane veio me dar dicas para fazer o que quisesse que fosse feito. Mostrou-se amplamente solícita e amável. Gentil. Bonita sempre fora, mas fazia questão de se tornar mais para mim. E com apenas dois pequenos dedos moveu pedaços de terra e me fez cair em seus braços, desequilibrado pelo tremor. Isto porque o amor é coisa grande demais pra se ter e pra ser um só. O amor é por todos, para todos. E eu acho justo dividi-lo. Jane conhecia a força do amor gratuito, amplo e anarquista. Jane.

Depois de alguns dias enclausurados em si mesmos e na construção da tragédia, Jane sumiu. Foi embora cuidar das suas pendências e eu voltei à realidade. Sofia sofria lá dentro de mim. E eu tentava consolá-la. Não poderia fazer nada mais além do que já fazia. Pedir perdão seria mentira. Alegar arrependimento também. Eu só poderia dizer que as coisas são como são e que se aceita ou não. Sofia fremia. Lânguida. Débil. Precisava de mim como eu nunca precisara dela, embora eu tenha precisado muito. Ela encolhia e sumia em minhas mãos, e eu tentava mantê-la viva, como uma flor que murcha brusca e inexplicavelmente enquanto vivia o auge do florescimento. Amargura. Ela poderia ter engolido e ter se tornado amarga. Mas isso não cabia dentro dela. O doce da sua doçura anulava o amargo da amargura que eu poderia ter imputado a ela. Precisávamos de dias completos de nós mesmos. Pra restabelecer o eixo. Saber onde estar e como ser. Mas ela murchava. Eu corria pra socorrê-la, desesperado. Sem saber pra onde ir e o que fazer. Jane, que noutros tempos tinha se mostrado conhecedora dos segredos e chaves de Sofia, desapareceu. E desapareceu tanto que quando voltou veio pra dar a notícia do meu filho. Ele viria. Sem dúvida. E era o meu filho, o filho que eu não tinha com Sofia.