quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

A Estiva

Diariamente acordava às 4 horas para comer seu bolo frio e seco com café quente e doce. A vida amarga o fazia pensar nas pessoas. Isso bastava para aquecer o coração. O modo sombrio, frio e vazio como via sua existência não se assemelhava ao modo como via a dos outros. Bastava a vida de amarga e fria, o café que fosse doce e quente. Seu trabalho manual, violento e bruto o fazia pensar nas coisas. Ele preferia assim, não queria gastar sua imaginação e sensibilidade com planilhas, relatórios e escritórios engravatados. Melhor fosse a jornada de 12 horas sob sol de 40 graus no cais do porto estivando madeira, aço, ferro-gusa, carvão, toneladas de brinquedos chineses. Porque assim pelo menos ele pensava em outras coisas. Mais profundas. Mais sofisticadas. Mais emocionantes do que pensar em como fazer o que deve ser feito. Quis ser ator um dia, por ser forte, mas não foi capaz. Era introspectivo demais. Uma abundância de sentimentos incapaz de ser externada. Vivendo sob uma caixa-preta blindada junto com anseios humildes e despretensiosos. O estivador não pára pra pensar porque ele não pára de pensar. Os dedos exprimem a arrogância de homens distantes. Ninguém os quer a não ser para trabalhar e morrer. Mas o estivador quer pensar, humildemente, no vazio dos contêineres que carrega. A única coisa capaz de salvá-lo é o céu quando manda chuva. Porque o trabalho precisa ser interrompido caso a carga seja doce e possa derreter. O coração do estivador é doce, mas não derrete como açúcar em chuva e pessoas feitas de açúcar quando tomam chuva. O estivador carrega nos braços a globalização. O comércio que não é pra ele, não é feito por ele, e não faz nada pra ele porque está muito ocupado em fazer a si mesmo. O estivador quando pensou nisso realmente não entendeu por que pessoas que moram do outro lado do mundo precisam comprar brinquedos ou alface ou ferro ou terra ou comida de pessoas que moram perto dele. As pessoas deveriam viver com o que têm ao seu alcance, em vez de mandar trazer para elas de navio. Ele não entendeu como uma moda pode subverter tanto a capacidade cognitiva humana e fazer esta raça perseguir o fundo do poço com tanta avidez. O estivador não faz nada com sede ou pressa. Pra ele o tempo é infinito e ele nem mesmo se preocupa em estimá-lo, acelerá-lo ou querer coisas que nele se apresentem no futuro. O futuro é o mesmo passado. O presente é a única coisa diferente que ele tem porque é quando ele pensa. Quando pensa ele faz. Mas faz tudo igual. Tudo de novo. E quando ele pensa que fez tudo igual tudo se torna passado, e por isso é tudo igual. E se ele pensa que vai fazer diferente, então é futuro, e no futuro as coisas são como no passado. Não dá para saber como o estivador organiza estes conflitos temporais. Desconhece estratégias para enganar o tempo e enganar a si mesmo como bloqueador solar. Se o dia acaba, ele vai pra casa dormir. Um pedaço de chão com algumas espumas, parede verde-piscina desbotada e rabiscada pelo tempo que insiste em ser o mesmo no passado e no futuro. Um copo, um fogareiro, uma xícara sem píres, uma colher pequena e outra grande. Um prato de esmalte branco com o fundo raspado, evidência grotesca das suas alimentações. Cinco corotes de aguardente. Um pote de metal que é usado como panela. O estivador não precisa de mais do que isso para viver e continuar estivando até o homem terminar sua peregrinação ao fundo do poço.

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