domingo, 23 de outubro de 2011

Eu queria estudar a sociologia do conhecimento

Quanto mais envelheço, mais tenho medo de falar. Parece que as ideias se tornaram todas horríveis. Coisas feias como papel picado de jeito torto. Mas não é. Porque os pensamentos de antes eram muito mais frívolos e saíam, mesmo assim. Uma camisa de força veste a escrita e o pensamento. Não deveria. O pensamento nunca deveria ser envolvido, muito menos por camisas de força. Mas o é. E da maneira mais insensata possível. Com rigor. Com clamor pelo não dizer. Não dizer não serve, principalmente quando se tem muito a dizer. Tenho muito a dizer, mas já nem sei mais o quê.

Não é todo dia que passeio de mãos dadas. Não estou acostumado. Ela sente falta disso. Sofre, mas não diz. Jamais dirá. A não ser que um dia ela se sinta confiante e segura o suficiente para dizer. Isso porque, no começo, pareceu que eu estabelecia uma regra: a de não reclamar de comportamentos pessoais inexplicáveis. Como não gostar de andar de mãos dadas. Mas eu gosto de andar de mãos dadas! Gosto de demonstrações públicas de afeto! Ela que não gostava e, por algum motivo absolutamente desnecessário, eu me fiz parecer que também não gostava. Verdade seja dita e encarada: ela quis parecer não gostar, por algum motivo desnecessário. Eu anuí, por outro motivo desnecessário. E assim nossas vidas se locupletam uma da outra, cheias de acúmulo de desnecessidades.

Fazer o que se quer. Dizer o que se pensa. Tocar onde se vê. Tudo parece tão fácil e tangível, que surpreende. Quem vive a vida real sabe que não é por aí. Deveria ser, mas não é. Ou talvez seja, e não seja apenas para as pessoas imbuídas de algum senso. Senso de sentido de que deve fazer alguma coisa. Quem pensa que não deve fazer nada deve sentir tudo assim, tangível. Quem acha que deve fazer alguma coisa não vê nada tangível, mas tangencia, ao menos. Isso conforta. “Estou bêbada no Leblon, chega aí”. Essa é uma frase dispensável, desnecessária. Mas ela adquire sentido para muitos contextos. Não este. Não aquele. Quero estar em outro lugar, perto do Leblon, mas não lá porque acho feio. Acredito no sentido dessas coisas abundantes que jorram por aí, com cores e lanternas, faróis, crucifixos, meninas, rãs. O passeio é longo, o turbante é branco. A coisa degringolou.

Quero falar mais sobre andar de mãos dadas. Eu gosto. Ela gosta. Por que não andamos, então? Desnecessidade. Ou necessidade de andar. Ou desnecessidade de demonstrar afeto publicamente. Vai que algum dia surge certa heterofobia. Impressionante, a palavra ainda nem existe no dicionário. O que importa é o que acontece no oco do osso. A coisa entra e dói de verdade, entre eu e ela. É tão bonito. Ela fala coisas que eu gosto de ouvir e que ficam passando várias vezes na cabeça ao longo de outros vários dias. São aqueles tempos de frouxidão, mas não só isso, as coisas passam naqueles momentos de apreensão. Como se eu passasse o tempo todo pensando que poderia morrer a qualquer momento, que não deixaria de fazer nada porque não tinha nada a perder, nem a vida, e aí me passa uma frase dela na cama e repenso tudo. Tenho sim algo a perder, as frases, as novas frases que virão na próxima deitada de cama em algum próximo dia de frouxidão, com ela. Dia de frouxidão sozinho serve pra lembrar das frases de cama dela. Dia de frouxidão com ela serve pra ouvir novas frases de cama dela pros próximos dias, pra ter algo a perder nos próximos dias, pra não querer fazer tudo alucinadamente temendo morrer e parar de ouvir na mente as frases de cama dela.

Estou com saudade. Peito em brasa, morna, porque depois de algum tempo toda brasa é morna. O que é uma verdadeira insanidade e injustiça. Eu tinha jurado pra todo mundo que nunca deixaria a brasa destruidora abrandar. Mas fugiu ao meu controle. Quando vi, já tinha se passado algum tempo, o vento várias vezes, os cabelos, o tédio de um segundo. Tudo virou objeto de um passado recente, mas ainda assim passado. O significado do presente mudou. O significado do futuro é mais conformado, com o que quer que seja, desde que haja alguma paz. Alguma paz é muito pouco para alguém que há pouco queria tudo, no sentido amplo. Tudo de tudo com tudo, e mais. Mas é sempre assim, quanto mais se quer, mais se vai abaixo, e depois o que importa é o nível onde vai se equilibrar. Eu ainda não fiz esse trajeto, mas já estou nele. Onde vou parar é uma incógnita, talvez em alguma rodoviária do velho cerrado do oeste. Onde a coruja vira o pescoço. Onde a onça aparece. Onde eu vejo a floresta de frente e escuto o sangue daqueles homens que vivem dentro de mim e que já percorreram-na toda. Eles, às vezes, querem me fazer entrar lá. E é uma vontade insana porque eu mostro pra eles, com meus olhos, que não há mais floresta. Eles não aceitam, mesmo vendo, embora pareça que não enxergam.

O fato é que para eles não é nada fácil ver algo que não existe, ou pelo menos não existia para eles.

domingo, 9 de outubro de 2011

Amanda e o gosto de geladeira na boca

Olho dentro dos olhos dela e vejo a cor do universo. Sentir-me fora do caminho. Sou um pedaço de qualqur coisa jogada pelo tempo-espaço. Sem movimento, agindo estaticamente, agindo em si, consumindo-se. Um puro desperdício. Um puro desrespeito com a verdade. Saber que há tanto a ser feito, tanto mundo a ser vivido, tantas bocas a serem assopradas com beijos de tempestade. Todas as vezes são a primeira vez. Ela poderia me levar pra todos os lados, mas eu é que teria de levá-la. Porque as vestimentas não são adequadas, o rosto pálido não encontra expressão, os dias não têm razão. Tudo é tão morno, tudo é tão mediocremente cômodo. Eu lembro dela, uma pele lisa e bem tratada, fez-me lembrar dos dias de algodão. Olhar dentro dos olhos dela e não me ver causa dor. Eu queria estar lá, como eu queria estar em toda parte. Por que é tão difícil saber o que se deve fazer? Mentir, enganar, sabotar o tempo todo? Até quando? Até que dia? E o que é pior, tudo isso pra mim mesmo. A maior autossabotagem é não conseguir se ver, mas não é intencional! Eu quero ver! Eu quero olhar pra dentro de mim como olho pra dentro dela; quero ver em mim o eu que não vejo nela; mas não consigo! Se fosse fácil, faria e seria, em vez de estar. Um tema caro para mim e as discussões. Ser é diferente de estar, porque um implica o outro, mas o outro pode não ter nada a ver com um. Os olhos dela têm o brilho do universo inteiro, uma cor impressionante, porque não têm cor, não são azuis, nem verdes, nem castanhos-claro ou escuro, nem pretos, são cor-de-olho e só isso, cor do universo, cor do mundo inteiro feitos só para mim, para que tente enxergar o que não vejo em lugar nenhum.

Tempestade na floresta, no mundo inteiro. Um choro vazio e discreto. Um choro que doi porque escorre pra dentro. Um choro do meio. Um choro sem fim. Um desespero infinito que só é aplacado quando olho dentro dos olhos dela, porque troca. Quando olho dentro dos olhos dela e não me vejo, sinto o desespero da possibilidade de perdê-la, ou o que é mais desesperador ainda, a possibilidade de nunca tê-la tido; mas como, se ela está comigo e sempre esteve? Não sei, não estou tão certo disso. A insegurança é um veneno que racha a cor dos dias. Não dá pra saber nunca, mesmo sempre sabendo. Sei que ela está comigo, mas queria algo mais, queria que ela me fosse ou que eu fosse ela. Queria ser com ela; queria o que o impossível não consegue fazer por mim.

É muito fácil não saber onde estar ou onde se quer estar. Difícil é entender os porquês; eles são tão possíveis. Estão todos aí, dispostos, colocados numa ordem totalmente relativa, de modo que podemos usá-los como quisermos, se é que queremos. O mais sagaz não usa porquê nenhum, só faz; determina e aceita tudo integralmente, como tem que ser. O tempo não é universal, porque se fosse o meu não seria tão diferente. Não que esteja sendo egoísta, é só que o tempo passa diferente para mim, perco-o muito mais fazendo projeções do que vivendo-o. Quem sabe que as luzes se foram? Sem luz não fazemos nada, nem pão-de-queijo. Não dá pra brincar de abrir latas. O homem universal, sem tempo dado, sem momento específico, faz o que quer, quando quer. O homem universal, sem tempo, não pensa no passado, nem no futuro, vive só agora, como se no próximo segundo já fosse morrer, e tudo o que faz baseia-se nesta lógica, a da morte, e, portanto, é necessário não perder nenhum tempo, mas viver o tempo do tempo, como um homem universal, sem tempo. Eu não consigo ser um homem universal sem tempo.

Eu quero fazer tantas coisas, que não consigo imaginar nenhuma. Todas elas se amontoam, em vez de estarem dispostas em alguma ordem. Eu queria que elas estivessem em alguma ordem, mesmo que eu não a compreendesse. Sair de um quarto, viajar o mundo, buscar aprender alguma coisa todos os dias, e todos os dias ganhar o dinheiro necessário para comer, como um prisioneiro livre. O prisioneiro livre busca o fim do mundo, mas não fim no sentido de final, mas de finalidade. Qual é o objetivo do mundo? Qual é o meu objetivo? O nosso não me interessa, só o meu. O prisioneiro livre vaga pelo mundo, trabalha como catador de lixo, estivador, marinheiro, piloto de helicóptero, tripulante de transatlântico; e assim, sem pressa, ele cruza todos os cantos do planeta em busca da liberdade de ser livre. Ser livre é a maior prisão possível, porque não se tem por que lutar. Diferente de quando não se tem liberdade, ao menos tem uma luta, um objetivo. Dependendo de como você pensa, você nunca tem liberdade, por isso vai continuar sempre lutando por mais e mais; mas para alguns, atinge-se a liberdade plena, e a vida torna-se um saco sem fim. É fácil não ter escolha, por isso ouvimos todos dias grandes homens dizerem: "fiz o que tinha que ser feito", claro, ele não perdeu nenhum tempo avaliando outras possibilidades, nunca supôs o sim ou o não, as opções mais elementares de qualquer situação. Para eles, só havia fazer o que foi feito, mesmo quando o feito é grandioso, foi fácil, pois só tinha aquilo pra ser feito. O problema vira sua cara quando há possibilidades, que começam no dilema entre o sim e o não e que, após esse embate inicial, adquire complexidade e formato, muitas vezes, intoleráveis. É fácil não ter opção ou liberdade, difícil é tê-los e ter que escolher. A mão da liberdade que repousa em seu ombro na hora de decidir qual caminho tomar é pesadíssima, senhores, pesadíssima.

Amanda é uma mulher doce, mas tão doce, que nem sei se existe de verdade. Ela veio aqui, me disse meia dúzia de coisas e não disse um milhão. O fato de ela não ter dito um milhão de coisas mudou tudo. Ela é assim, alguém que não diz um milhão de coisas porque sabe que não são necessárias. Com meia dúzia, já conseguiu minha confiança de colocá-la próxima a mim. Mas tudo parece tão doce, que o veneno da insegurança contamina. Há uma descrença eterna e renitente que não se cansa de querer contradizer a realidade, doce ou singela. Por que nada pode ser simples o suficiente para ser? Porque o veneno não deixa.
Eu quero Amanda e Amanda me quer, e assim vamos nos querendo pra sempre sem desistir de ser o que tiver que ser; mas o espaço vazio vai sempre existir, pelo menos enquanto eu for assim. Como o gosto de talco, como o perfume de maçã e madeira, como a geladeira fria da madrugada. A geladeira fria pode abrigar monstros terríveis como o álcool na madrugada insone. Mas a geladeira fria pode ser só mais uma farsa deste mundo doido, pra tentar me convencer de que ele não liga muito pro que eu digo, o que não é verdade. A geladeira fria abriga um doce, tão doce como uma amora. Aquela de aspecto vermelho escuro, mas que por dentro tem uma encarnação viva e emocionante. Me dá prazer morder uma amora, abri-la, vê-la por dentro, toda, antes de comer. É como abrir e comer Amanda, por dentro e por fora, vendo suas cores. É quando ela está mais exposta a mim, mais crua, mais sensível, mais de verdade do que nunca. E nesse momento, ela não precisa dizer nem a meia dúzia de palavras que me conquistaram, mas ela pode não dizer nada porque tudo já está sendo dito.

O vermelho encarnado de Amanda por dentro é o vermelho mais vivo, bonito e emocionante que já vi. Um grande romance. Um grande poema épico. Uma tragédia inteira, com todos os atos necessários para satisfazer aos mais diversos gêneros. Amanda por Amanda, que ri, sofre, sente, chora, isola-se, retorna, está aqui, mas está lá, longe e aqui, ri de novo e me faz rir, me acorda de madrugada com medo, depois passa, dorme de novo, eu não consigo dormir mais, mas ela sim, fica bêbada, diz besteira, dou mais risada, ela  sabe se divertir, bebe demais, cai no chão, eu também, às vezes sou eu quem a carrega, às vezes sou eu, podemos estar doentes de alcoolismo, podemos estar doentes da vida inteira, podemos estar doentes por não ter nenhuma doença, podemos estar doentes de saúde, ou doentes de saudade. Uma saudade que já não se sente porque não se deveria sentir. Uma saudade oca, saudade de ter saudade; saudade de amar loucamente; saudade de ser um só, inteiro e uno, feito à verdade e à integralidade. O universo sabe o que está fazendo conosco, Amanda, mas você precisa dizer a ele para mudar a disposição de fazer. Talvez menos nos baste.

domingo, 21 de agosto de 2011

O amor indiferente.

Foi dizendo que descobri quem me acompanhava. Foi inteirando-a que soube com quem eu lidava em mim mesmo. Uma sacola plástica sufoca quatro mil pensamentos, mas uma camisa de força sufoca uma vida inteira. Ela sentada ao meu lado, com as mãos uma sobre a outra. O cabelo caía pelo rosto incomodando. A posição era confortável e ela jamais se atreveria a arrumá-lo. Eu queria que ela se visse e fui dizer a ela como ela estava. Continuou indiferente. Sempre me fora assim. Que tipo de amor se mistura à indiferença. Que tipo de escravo mantém sua devoção ungida face ao maior crime de todos os tempos que é a indiferença. Eu. Ela. Um e outro. No bar as coisas se revelam. No dia seguinte elas impressionam. Ninguém vê o que todos querem ver. Mas ninguém vê não porque não pode, mas porque não quer. Junto minhas mãos ao redor dela pra ver se consigo viver em paz. Ela deixa, não importa, e faz um brinde à indiferença. Sobreviver é muito difícil nesses tempos de amor indiferente. Prefiro a loucura do amor doido, doído. Aquele que esteriliza todas as possibilidades de ter outros pensamentos, senão ela. Ele faz querer que ela viva todas as coisas por mim e comigo. É difícil sentar, esperar e ouvir. O que ela quer ser não serve justamente porque ela não sabe ser. Amar é bom e amar demais faz sofrer. Mas amar de menos faz sofrer mais ainda. Se se ama, se ama! Não se pode amar sem amar. Doer sem machucar. Gritar sem voz. Correr sem perna. Não se pode. Nem aqui nem longe. Nem nas estradas infinitas que me levam a qualquer lugar menos aonde eu gostaria de ir. Isso é porque elas, as estradas, não querem que eu chegue nunca aonde eu quero ir. Não querem que eu pare de viajá-las. E assim o tempo passa e andamos mais 942 milhões de quilômetros todos os anos, parados, sem querer. Uma paz invade a alma quando se pensa que mesmo parado andamos tudo isso, e a 107 mil quilômetros por hora. Vale a pena correr tanto, portanto. Não sei mais até porque não sei se aquelas mãos vão ser meu par. Dançar a noite toda, juntos. Indo embora sempre pra dar mais uma volta ao sol. Sangrando, sendo puxado pra baixo pela gravidade, com o couro esticando, enrugando, e a vida murchando para dar espaço a outras vidas. Se dessa vez pelo menos ela fosse embora, sem indiferença e não demorasse a voltar pra curar a dor. Eu ficaria contente. Não precisaria mais de tantas coisas e apetrechos pra fazer minha casa mais parecida com a natureza. E o bote salva-vidas continuaria remando em busca de vidas a salvar. A roda gigante continuaria rodando e se gastando. Eu preciso de todo o cuidado do mundo, e não da indiferença. Eu respeito o mundo, a liberdade, quem eu sou e quem ela é. E parece que ela não sabe. Não é tão simples fazer as coisas boas até porque elas não existem! Preciso inventar. O estrago. O buraco. O escândalo. As mãos. Tudo me faz pensar nas mãos! Só mãos, dedos, unhas, palmas e almofadas de mão sabem dizer alguma coisa sobre ela, que não diz, que não decide o que é bom de acordo com a previsão. Seria eu o que eu escolhi ser? E mais, a ponto de aceitar?

domingo, 19 de junho de 2011

Nenhuma tragédia é tão bela quanto o amanhecer do dia

Fazer o amor e ver o sol nascer e depois se por. Perder o fio do tempo, o sentido do sereno caindo. É lindo de morrer ver o dia nascer com os braços latejando, a alma em frangalhos por causa das sensações. O céu do sertão me traz imensa saudade, na imagem, na mente, na vontade de que ele se materialize novamente. Aquela coisa do sol engolir o rio ou o rio embolar com o sol. A madrugada tem tanto amor. É amor descabido que vira vazio. Amor demais faz o saco murchar. Murcha como bola ao sol. Porque o sol é tão forte e bonito que enche, enche, enche e depois esvazia pra encher de novo. Quem só quer amor e mais nada quer tudo. Porque tudo é o que não cabe em lugar nenhum. Presença do tudo junto com nada, tanto faz, são tantos instantes. Um dia a consciência surge e chupa sua cabeça, presença, verdade e histerias. Você fica paralisado. Vendo o verde em tudo. Igual aquele preto que você vê quando fecha os olhos. Mas não, quando a consciência surge e chupa sua presença você vê verde. Tudo verde, coagulado, como se o sangue da natureza, das árvores, das veias abertas da terra, rasgadas, estivessem coagulando. E você vê. Vê e chora. Chora porque vê, chora porque sente, chora porque é e porque não queria que assim fosse. Às vezes ver não é bom. Mas é, é sim! É bom, melhor ver, ver tudo, e doer junto com o mundo, sentir com ele, ouvir sua pulsação, a respiração ofegante, meio cansada, cambaleante. E assim ouve o coração dele ser rasgado de fora a fora. Mas pra que se tudo é conserto, regeneração. A guerra rasga os homens. A dor mumifica. A verdade transtorna. Quase todo o prazer que queremos é perturbador. Mas mais perturbador ainda é pensar o tamanho do prazer que podemos ter se ao menos conseguíssemos renunciar ao prazer pequeno. Mas o prazer pequeno é um gosto tão gostoso. Ah, dilúvio, ah aleluia, ah sabão de côco, ah cheiro de cabelo de mulher, ah sal do mar na boca, ah vento na testa, ah música. Acho que de agora em diante só quero saber do  meu gosto, e não mais do gosto dos outros que sempre gostei. É a lua que vira e faz o mar da terra virar.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

É.

Era só um pedaço de carne crua. Mas doía tanto que nem parecia de verdade. Uma mentira passada pra trás pelo tempo. Um doce azedo. Uma coalhada branca despedaçada com calçadas recortadas. Mas eu só sei das vezes que tentei ser, em vez de estar. Todas resultaram em grande tragédia, física e pateticamente emocional. Som, sim, pois tudo o que é emocional é patético e tudo o que é patético e desprezível é beligerante. Mata. Come. Atropela.

Como ele disse um dia que se fosse pra atropelar, ele atropelaria. E eu disse que não. Eu não atropelaria. Faria o que fosse mais conveniente. Passar por cima não é atropelar, é somente buzinar e não frear, sabe?!

Fazer o quê se as agruras do amor consomem os dias, as noites, as tardes, as manhãs, os desejos, os desesperos. Eu pelo menos tenho noção plena de que sou ridículo, patético, desesperadamente translúcido, não falo o que vejo e não vejo o que falo na mesma medida em que minto e monto bois. Ele não, acha que sabe muito, que pode falar e se opor pelo mero exercício, e pra isso tira do inferno, ou do cu, argumentos sebosos e amebiasíticos para expor como quem expõe a grandeza. O pior é que eu também sou, sou exatamente assim, faço exatamente isso. A diferença é que, como estou fazendo agora, faço sempre, admito, reconheço, sou um ser da mais alta pateticidade. Ele não! Fala a mesma idiotice, mas com autoridade, se acha. E é ridículo porque não convence ninguém, nem as toupeiras, mas enche o peito pra falar o quanto sou patético por agir como ele. E como ele não sendo como ele, mas que nem ele.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Pássaros loucos longe do ninho

A identidade de Alexia era forte demais para suportar a fraqueza de Pedro. Sentiam-se vivos como os candelabros de um jantar ao ar livre. Mas não sabiam até onde ir. Tinham medo do escuro que é o dia depois do primeiro encontro. Passear por toda a cidade, de mãos dadas, visitar orquídeas, museus e palácios, tomar sorvete, ver filmes e ouvir discos ao vivo. Tudo não passa de efemeridades. Um momento no qual se perdem os laços entre a vida e a vida real. Elas não dialogam, as duas vidas.

Alexia passa os dedos por entre os cabelos. Não pensa em nada a não ser surpreender. De repente quer dizer algo que não sirva pra nada. Algo assim, do além e desinteressado pra ninguém. Lembra de como é bom ter alguém pra trocar mensagens de celular na madrugada, na manhã de um dia cheio, na noite que chove e o céu fica vermelho de vergonha. Fala ao telefone silêncios de meia hora. Fala palavras como quem dedilha um piano, tecla por tecla, sílaba por sílaba. O nexo se encaixa depois como o mel que adoça o café forte amargo das tardes de trabalho. É tão bom. Mas tão bom. Tão bom que nem parece que vai usar aquele café pra trabalhar depois.

Eu sei que você quer ficar comigo pra sempre, pensa Alexia, mas se você disser, vai estragar tudo. Nada como se enterrar na masmorra pra esperar o tempo passar e ver que ele de fato não volta. O tempo não volta, mas as pessoas voltam, assim como Pedro voltou para Alexia depois de anos de esquecimento. E assim como Alexia voltou para Pedro quando já imaginava nem mais lembrar-se dele. Sim, um se lembra do outro, e quando se viram não houve dúvida. Nenhuma. Foi tão bonito. Mas tão bonito que eu queria ter visto. Os olhos dois devem ter brilhado.

Seria naquele dia, um sábado qualquer do inverno. Um inverno cinza, cheio de roupa escura glamorosa. Com passeios programados e um suco de amora azeda pra ser tomado. Um dia como todos os outros que têm fim. Eles dariam o beijo que nunca foi dado do amor que sempre existiu. Um romance que os levava a fugir e se esconder. Sem saber de que. Somente sabiam que tinham que fugir pra algum lugar onde fosse deles. Só deles. Fugindo em busca do lugar eles nunca mais se viram. Até ontem. O dia do beijo nunca dado do amor que sempre existiu.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Madrugada na rua.

Saí descalço pela rua. Madrugada quente, úmida, abafada. Mas eu não sentia entre os dedos dos pés as pedrinhas que insistiam em me machucar. Idealizando vidas, mulheres, momentos, eternas situações de gosto para combater o desgosto que era estar. Nunca se é se não se sabe estar. Mas estar onde? Como já disse e já ouvi um dia, é preciso saber estar. Nunca sei. Nunca soube. Sempre quis saber. Por isso idealizo. Sonho que sei. É difícil caminhar pela cidade vazia, quente, úmida, numa madrugada sem sentido. Em busca de sentido todos nós nos perdemos um dia, ou todos os dias. Não é possível se encontrar sem se perder. Os caminhos são tortos para que saibamos que fizemos escolhas erradas. Se todos os caminhos fossem retos, sempre acharíamos que tínhamos feito a escolha certa. E o certo, meu amigo, eu mesmo, não existe. É difícil chegar às seis da manhã, hora tarde, ou cedo, não é? E descobrir que sempre se viveu na ilusão da busca por ideais. Os ideais não existem. A mulher ideal não vai aparecer na porta pedindo socorro pra não suicidar. A vida ideal é a que não temos. Quem quer ter? Acho que ninguém. A vida ideal custa muito caro. Não se pode ser assim.

Viajar só pra ir. Não importando aonde. É o que desejo. É o que sinto. Forte como o gosto de vinagre vencido, puro engano. Vinagre não é mais vinagre se está vencido, engodo trágico dos deuses. Os caminhos perdidos levam invariavelmente à tragédia, por isso preciso recobrar a consciência e sair do mundo fantástico. O mundo ideal, onde eu sou possível com todas as desvirtudes que me compõem. Não sou possível. Preciso entender isso de uma vez por todas. Ou eu me torno possível ou vou ser morto, fuzilado, afogado neste mundo real impossível pra alguém com as desvirtudes que tenho. Mas aí entra novamente a força do ideal: a transformação. O próximo ideal é transformar-me. Novamente é ideal. Nem no mundo real nem no ideal posso ser e estar. Onde então? Onde eu sou possível? Na floresta? No alto da montanha? Numa casa podre na beira do lago? Numa casa de papelão debaixo do viaduto? Não sei se sou possível, tampouco onde seria. Vencido. Expirado. O alimento deve ser retirado da prateleira e descartado para incineração sob perigo de propagar bactérias ultra-resistentes. 

Ir e não voltar é um exercício que deve ser praticado com mais frequência. Mudanças produzem efeitos que não se sabe. Melhor viver com o que não se sabe do que com o que se sabe que é uma merda. Viver de improviso. Voando na bolha de sabão que pode estourar. Mas pode subir se alguém assoprar. Ele não tem mais reserva de ego para ser rejeitado. Ele disse isso. Será que também vive numa bolha do mundo ideal? Não poder ser rejeitado e não ter reservas à rejeição é ser possível? A possibilidade é o que me espanta mais. Quando se quer muito, não se pode. É a dura verdade. Está mais uma vez perdido quem rejeita  se antecipando à rejeição.

Uma noite quente, úmida e abafada possui vários personagens. A barata que caminha por acaso na calçada. Um rato que passa pela sarjeta. Os mendigos cobertos de papelão embaixo da marquise das lojas, escorados na porta de ferro rolante. Os taxistas que passam e oferecem um passeio. Não, não quero, estou bem à pé. O bêbado que anda trombando nas placas, postes e lixeiras. O fodido de fome que revira lixo, junto com cães. Quem é mais fodido? O cão ou o fodido? Quem é mais possível? Acho que se respondesse a uma das perguntas saberia todas as respostas. Há também pessoas impossíveis que só andam na madrugada como eu. Vão pro trabalho, voltam dele, andam à toa, vão para festas, voltam delas, vão para a casa dos amantes, voltam de lá. A rua é bonita. E só se pode entendê-la na madrugada. Durante o dia não. O sol faz as pessoas pensarem que têm que fazer alguma coisa. A lua não. A luz da lua ou a luz da noite diz pras pessoas ficarem à vontade. E durante o sol, mesmo quem não tem nada pra fazer, alucina e faz alguma coisa. À noite as pessoas fazem o que querem. Drogam-se, bebem, fazem amor, passeiam pela rua sem sentido, dançam, ouvem música, assistem a filmes emocionantes, criam fantasias, idealizam suas vidas.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

A tragédia de Sofia - Parte III

Algumas sensações são tão efêmeras. Por que? Me pergunto sempre isso em tardes de domingo porque a sensação de um domingo ordinário à tarde dura mais do que deveria. Já as melhores sensações passam antes que se possa capturá-las. Boas sensações são pássaros raros que voam livremente. São indescritíveis. Irreconhecíveis à primeira vista. Impressionantes. O difícil é lidar com o desejo louco de caçá-los. Torna-se um vício insalubre e obsessivo. Até que se percebe o absurdo das situações em que nos metemos em busca desses colibris sensoriais, rouxinóis e flamingos cantantes, cintilantes e que voam, voam e mais voam do que fazem. Por que? Porque o universo nos testa a capacidade de senti-lo para si mesmo. Ele se sente por meio de nós e nós ao experimentarmos essas sensações incríveis queremos mais. E o querer mais se torna alucinante porque é diferente de tudo o que se pode imaginar. Algumas sensações são comuns, embora ainda assim indescritíveis. Mas e a dor de sentir demais. O universo muitas vezes não nos ensina a lidar. E não se satisfaz. Fica nos provando, nos metendo em veias gigantes que jorram sentimentos. Párem o mundo que às vezes eu quero parar de sentir. Quanto mais o sentimos, o universo, mais aprendemos, claro, mas também mais longe ficamos da realidade material. E como lidar com as pessoas que só vivem a realidade material uma vez que atingimos picos sensoriais do universo? Fomos feitos para sentir. Mas alguns insistem em ser insensíveis. Bem-aventurados os que sentem, comem, apalpam, choram, gritam e tudo ao mesmo tempo, vivendo o intenso dos dois mundos.

A sensação da paternidade é uma daquelas comuns, mas ainda assim indescritíveis. Quando se vê o filho nascer todo o organismo vibra com intensidade singular. Mas eu não posso dar nenhum detalhe porque até agora só sei que vou ser pai, mas ainda não sou. Jane vai dar a luz em setembro. Filho da festa de reveillon e das promessas de um novo tempo que não se cansa de chegar a cada dia. Sem hipocrisia. Primeiro coito do ano, naquela atitude louca de que no primeiro dia do ano temos que ser capazes de fazer tudo o que não fizemos ao longo de todo o ano que acaba de acabar. Inclusive fazer um filho, como se todos os anos passados nós tivéssemos que ter feito um filho e não fizemos. Tudo tem mudado tanto em mim e nas pessoas.

A vida dela passava por altos e baixos. Um dia conhecia pessoas. Outro dia se sentia solitária. Com gosto amargo na boca. Passeava sempre em dias chuvosos em busca da paz. Eu disse a ela que se contentasse com paz, alguma paz, pois 'a' paz não se encontra porque não existe. Expliquei que tudo na vida é uma questão de expectativa, quanto menos se espera mais feliz se fica com o que se tem ou se consegue. De novo, tudo é uma questão de expectativa. Com seu guarda-chuva xadrez desbotado ela seguia buscando a paz em dias chuvosos. Eu como amigo da amiga e semi-amigo costumava dizer que ela era muito exigente com os homens. Pra quê, Jane? Precisava se expor mais a eles. Mas ela dizia que sempre que se expunha, sofria. Ela não compreendia que sofrer é importante e que é tão comum quanto respirar. Uma vez que se entende isso, perde-se o medo. Não que não ter medo nenhum seja de todo positivo. Não é. Não ter medo faz a pessoa não ter limite. E não ter limite leva a pessoa a se estrepar, embora eu ache estrepar-se e não ter limites coisas lindas e louváveis da vida. São poucos os que logram ser assim. Mas como tudo na vida, o bom é o equilíbrio e eu devo admoestar isso porque sou prudente comigo mesmo, com o mundo e com os sem limites que se estrepam. Imagine o mundo que seria se todo mundo rompesse o limite e se estrepasse. Seria sensacional, mas os verdadeiros e originais estrepadores fodedores de limites perderiam o espaço e o brilhantismo. Estrepar-se seria comum e aí o brilhantismo se desviaria pros imbecis que nunca se estrepam. O mundo ficaria virado, chato. Que coisa, Jane! E ela, Jane, era daquelas pessoas desequilibradas. Medo demais. Cautela demais. Dois sofrimentos e desilusões amorosas fizeram-na uma garota fria, arrogante, cínica e dissimulada. Daquelas que transam com qualquer um numa noite só pra se sentir gostosa. Mas na verdade finge a gozada e se apavora com a possibilidade de rever o parceiro. Isto é anti-amor. Isso é uma verdadeira tragédia.

Sofia era ao todo diferente. Uma pessoa de doçura incrível. Pronta pra vida e pra servir de instrumento sensorial ao universo. Aberta ao mundo, às pessoas e às sensações todas. Não era preciso romper barreiras para penetrá-la. E isso fez com que me identificasse, me apaixonasse e a admirasse. Sensação tremenda, devo confessar, é esta de conhecer uma pessoa como Sofia, entendê-la e saber que ela me entende. Nada como uma grande sensação de compreensão recíproca, embora muitas vezes discordante, descaracterizante, desconstrutiva e anulante. É, às vezes a gente se dava mal. Mas insisto, tudo isso representava aquela compreesão indescritível, mais uma vez, intraduzível e indiscutível. Não era necessário partir, brigar, discutir nem decidir. Bastava pensar para que o outro soubesse. Pra quê atos, palavras, articulações e insinuações quando se pode só sentir, pensar e ser compreendido?

Por isso que digo que Sofia era capaz de compreender o que acontecera com Jane. Eu só não sabia como fazer dali em diante. De um lado tinha a vida da vida. Do outro, a tragédia em pessoa carregando na barriga meu filho. Uma situação embaraçosa. Se pudesse fazer de conta que Jane não existisse ou nunca tivesse existido seria melhor. E mais, seria plenamente possível, se não estivesse com o meu filho. Mais trágico ainda pra ele. Ter uma mãe como Jane. Que sacanagem eu fiz com o jovem! Pra quê? Só pra começar o ano gozando.

O fato era que eu queria ficar com Sofia, casar-me com ela. Ficar pra sempre. Amar o amor com ela. Mas queria meu filho comigo. Conosco. Queria que o filho fosse meu e dela. Mas não era. Foi aí que tive uma brilhante ideia. Já que Sofia era elevada o suficiente e compreendia tudo. Estava tranquila com a situação. Sabia que tinhamos transado no primeiro dia do ano. Que eu era uma pessoa boa e escrupulosa. Que Jane era também. Pelo menos pra ela, Sofia, Jane era uma pessoa elevada. E de fato era. Eu só falei mal dela porque estava zangado. Zangado por ela ter aparecido na minha frente naquele dia e por termos feito um filho. Mas na verdade eu sabia que Jane era uma pessoa do bem, e a achava melhor quando lembrava do meu filho. Céus, ela tinha sido capaz de gerar um filho meu! Eu tinha que respeitá-la. Não só isso, tinha que admirá-la. E de fato o fiz e parei de achar ruim ela ter aparecido na minha frente naquele dia e ter feito um filho comigo. Claro, parei de achar ruim porque do jeito que a situação estava configurada, se não fosse ela, seria alguma outra, e poderíamos ter feito um filho do mesmo jeito, com a diferença que se fosse alguma outra a brilhante ideia que eu acabara de ter não se aplicaria. Eu tive a ideia de casar com as duas. Sim, porque deste modo eu ficava com Sofia, quem eu amava e por quem era amado, e com Jane, quem tinha o meu filho. Pra ele seria perfeito, teria um pai feliz e duas mães. Pra Sofia seria bom também porque Jane era sua melhor amiga e eu tinha certeza que ela amaria o meu filho com Jane. Pra Jane seria perfeito, ela teria a melhor amiga, o filho e um pai para seu filho. Minha ideia era perfeita. Depois eu faria mais vários filhos com Sofia e todos viveríamos felizes. 

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

O Cheiro do Verão

Paul Gauguin nutria uma paixão irrefreável por jovens mulheres. O desejo ardente por seus corpos, suas mentes e comportamentos era muito mais do que curiosidade. Era o motor de sua inspiração. Como disse certa vez ao pároco de Papeete ao censurar a suruba infinita que praticava em sua casa com selvagenzinhas: “se eu não fizer amor, não consigo pintar”. Vontade de sentir a presença jovem e irreverente. Ele tinha sido sério na juventude. Um homem recatado e pertencente à sociedade burguesa. Zelador dos bons modos e pai de família. Depois de certa idade convertera-se num artista consciente de suas limitações estéticas e experimentais e ansioso por ultrapassá-las com todas as forças.

Algo levemente parecido acontecia com Júlio. Um rapaz, não tão velho como Paul Gauguin aos 47 anos depois de voltar de uma viagem de auto-exploração e libertação pelo Taiti. Júlio havia sido um bom moço durante muito tempo. Recatado, conservador, respeitoso das moças e das verdades socialmente construídas e que serviam pra orientar a vida dos tolos e ignorantes sobre os próprios instintos e sensações. Júlio sentia-se finalmente livre para extrapolar os pontos de pausa e inflexão. Quem quer inflexionar perde tempo e não entende que grande parte da vida deve ser vivida sem essa pretensão dispendiosa. Não é tão radical quanto parece, tampouco como fiz parecer ao lembrar a história de Gauguin. Júlio só era um rapaz normal que finalmente, e que bom, tinha descoberto a irreverência e a leveza da vida instintiva e sensorial. Melhor pra ele que descobriu mais cedo do que muitos! O desapego custa caro e pra quem não nasce com ele é preciso fabricá-lo com as vísceras.

Aos 29 anos Júlio conheceu Amanda, de 16. Sua pele branca, limpa e macia o fazia lembrar do algodão e das nuvens. Seus olhos negros, grandes, ovulados e pentrantes o remetiam ao céu estrelado de uma noite de verão. Aquelas noites quentes de mormaço com um cheiro específico que incendeia o ar, que não deixa dormir. Os poros suam e sentimos o incenso que exala dos nossos corpos, atraindo-nos uns aos outros quase que obsessivamente, quase que como zumbis sedentos por carne. A essência das noites de verão, uma essência que paira no ar e queima lentamente exalando a fragrância da permissividade, da totalidade dos sentidos. O verão e Amanda eram muito semelhantes. Alvos, puros, suaves, com muita luz e brilho, e aquela atmosfera de calor envolvente, preguiçosa, em que todas as partes do seu corpo se tornam pontos potenciais de prazer. A exacerbação dos sentidos. Amanda era assim. Perfume do sol na terra com a delicadeza de mãos finas e moles. Cabelo liso e ruivo, longo. Contraste perfeito entre brancura da pele, vermelho do pelo, azul do céu e do mar, e o sol do verão nos trópicos.

Amanda era amiga da irmã de Júlio e tinha ido passar alguns dias do verão na casa de praia da família. Julio tivera dificuldades para comparecer ao encontro familiar devido a questões profissionais, mas na última hora foi capaz de administrar os compromissos e pôde descer a serra. Júlio já conhecia Amanda, amiga de longa data de sua irmã mais nova, Clara. Mas o primeiro olhar entre os dois no calor do litoral foi marcante. Amanda o penetrara. Fizera-o sentir-se invadido com os olhos flamejantes. Lindos, doces, meigos, mas perfurantes como pode ser uma viúva negra que seduz seu macho e o penetra com os tentáculos após a cópula. Não que Amanda tivesse esse aspecto lúgubre, mas os olhos eram muito belos e firmes ao mesmo tempo de modo a serem capazes de envolver e matar.

Amanda sempre o admirara, mas Júlio a tratara sempre como criança, amiguinha da irmã. Só que desta vez, os seios protuberantes e o fito que não desvia não permitiam mais a mesma atitude. Amanda subitamente se tornara mulher e Júlio ao vê-la assim, tão mudada e em tão pouco tempo, ficou desconcertado. O olhar sem timidez ou inocência o enlouqueceu. Júlio tinha especial admiração por mulheres ousadas e corajosas. Mulheres de inteligência superior eram aquelas que sabiam respeitar e dar vazão aos seus instintos. Isso em geral chamava muito a atenção de Júlio. A atitude invasiva, a pele delicada, a idade tenra ou recém possuída por sentidos e sentimentos graves, a condição de ninfeta amiga da irmã e da família, o sol, o cheiro do verão, o mar, tudo convergiu para que Júlio enlouquecesse e soubesse que este verão seria um dos mais marcantes.

Depois do encontro e de se acomodar, Júlio e as pessoas da casa foram dar um mergulho no mar. Já era quase noite, aquele momento em que o sol só é suficiente para iluminar e colorir as partes remotas do horizonte. Seu calor não aquece mais. A água morna fica azul escuro porque a luz não consegue mais atingir o fundo. Em trajes de banho Júlio pôde confirmar a transformação de Amanda. Uma coisa linda. E Amanda não mudava sua atitude. Sempre que Júlio a dirigia a palavra, Amanda o mirava no fundo dos olhos e não se desviava. Ela tinha a capacidade elástica de virar a cabeça para responder aos chamados de qualquer um sem tirar os olhos do fundo dos olhos de Júlio, que no começo se surpreendeu, depois encarou pensando que a moça logo sentiria pudores e desviaria o olhar, mas por fim estava novamente surpreso pela força e determinação do olhar de Amanda a ponto de ficar desorientado.

Após o jantar sentaram-se na varanda para observar o céu e conversar. Ele, sua irmã Clara e Amanda. As duas tinham se tornado mulheres. Falavam dos garotos com desenvoltura e conhecimento. Não se importavam com a presença de Júlio porque o julgavam velho demais para interferir e velho o suficiente para não se assustar com os assuntos moderadamente quentes. Clara tinha no irmão mais velho sua referência de liberdade e bom senso. Era sempre com ele que discutia e se aconselhava sobre questões amorosas, sexuais, filosóficas, cósmicas e profissionais. Para ela, o irmão tinha sempre as melhores avaliações, a opinião mais próxima da neutralidade e dizia frases que faziam muito mais do que resolver seus problemas, a faziam pensar profundamente, respirar e se motivar. Tudo o que Júlio dizia a irmã era algo como libertário, otimista e responsável. Clara sempre tivera consciência de que o melhor caminho era ser uma pessoa consciente e respeitosa dos limites seus, dos outros e do universo, exatamente na medida necessária para buscar superá-los, rompê-los, dilacerá-los, mastigar os limites e fazer deles um bagaço como se faz com o bagaço da cana. Isso graças ao pai e ao irmão, homens iluminados e com sensibilidade capaz de suprir o vácuo deixado pela ausência da mãe.

Amanda, por outro lado, havia se tornado uma garota muito inteligente. Adquirira excelentes referências culturais. Pôde conversar abertamente e em nível equilibrado com Júlio sobre os mais variados temas com base em importantes obras literárias, musicais, plásticas e cinematográficas. Amanda também demonstrara bom conhecimento em assuntos políticos. Basicamente, Amanda era uma mulher inteligente e excelente companhia para conversas de mesa, de bar, de praia, de jardim. Complemento e modelo perfeito para a irmã se inspirar.

Por volta de quatro horas da manhã, quando o assunto já se extendera em demasia e não havia mais o que ser dito, Clara quis se recolher.

  • Mas já, Clarinha?
  • Ah, já tô com sono.
  • E você Amanda? Se quiser pode ficar mais. Não precisa ter medo que não vou te morder escondido dela.
  • Não seja bobo, até parece que tenho medo de ficar sozinha com você.
  • Então tá gente, vou pra cama, boa noite.
  • Boa noite.
  • Boa noite.

Júlio e Amanda ficaram enfim sozinhos. Durante cinco minutos não disseram nada. Amanda ficou finalmente nervosa, podia-se notar pelo movimento de vai e vem frenético dos dedos dos pés e as mãos que não encontravam lugar confortável para repousar. De repente, Amanda pousou sobre Júlio os seus grandes olhos negros e respirou fundo num gesto sincero para despistar a tensão absurda que experimentava. Júlio começou a rir, puxou-a pelo braço e a beijou. Ele precisava dessa vitória. Precisava entregar a sua vaidade o troféu de vê-la desconcertada. Não era possível uma garotinha de 16 anos deixá-lo em transe e se manter para sempre no pedestal com os olhos vigorosos e imutavelmente firmes.

Foi o beijo mais doce que experimentara desde muito tempo. Amanda tinha lábios finos. Gosto de amora fresca na boca. Sua pele era tão frágil que qualquer movimento razoavelmente forte podia machucá-la. A barba de Júlio de um dia por fazer fustigava o rosto de Amanda, que nunca beijara um homem com barba, e isso fazia do beijo uma fricção de lábios, bocas, bochechas e línguas delicada e empolgante. Que diversão, Júlio, era passar e passear sua boca e rosto pela boca e rosto de Amanda! Ela estava curiosa. Percorria o corpo do homem com a mesma paixão e sentido explorador com que fazia com a boca na boca de Júlio. O beijo era suave, mas rapidamente Amanda ganhou confiança e começou a tatear com as mãos pequeninas de unhas mal-feitas o corpo do homem que sempre sonhara ser seu. Na intimidade, lembrou do amor que nutrira por toda sua infância por aquele moço mais velho e bonito que dava muita atenção a irmã e a ela quando iam brincar. Júlio as levava para passear no shopping, para tomar sorvete, para tomar banho de piscina. Júlio era para Clara o irmão perfeito e para Amanda, mesmo desde criança, o homem perfeito.

Após alguns beijos desses que duram períodos de finitude incomensurável, Júlio se sentiu mal, disse para Amanda que era hora de dormir e se retirou. Era como se ele estivesse violando algum dogma sagrado. Algum limite entre o possível e o impossível. Seu corpo respondera aos estímulos fornecidos por Amanda, mas a mente não queria permitir. Mente ainda atrasada, Júlio! Presa ao passado retórico de um jovem travado. Júlia ainda não estava totalmente livre daquele monstro que amarrava e açoitava seus instintos e emoções mais genuínos. Não se permitia. Amanda tinha acabado de completar dezesseis anos. Provavelmente ainda era virgem. Ele, com seus 29 anos, já fora casado, tivera em sua vida mulheres de todos os tipos. Conhecia bem a alma feminina, inclusive as jovens puras, doces e invioladas, mas quando as tivera também era um jovem. Agora, com a experiência que acumulara se sentia um lesador. Era como jogar sujo num carteado. Sabia as cartas de todos na mesa e conhecia o resultado da rodada. Não tinha o que fazer a não ser aproveitar da situação e extrair o frescor e a pureza de Amanda. Mas sabia que isso geraria resultados indesejados. Amanda já o amava com todas as forças. E o amaria mais ainda após ser por ele deflorada. Júlio era um dilema.

Para ele era como voltar ao passado. Rejuvenescer. Lembrou-se dos tenros dezesseis anos. Cheio de sonhos. Com romances e amores infinitos. Como fora linda sua adolescência com as garotinhas frescas. Neste momento não se sentia mal porque estava em pé de igualdade. Eram todos jovens, belos, doces, desenvolvendo-se. Agora ele se sentia um intruso. Amanda deveria experimentar aquilo com um rapaz da sua idade. Ou não, ou talvez fosse uma garota abençoada que poderia ter o privilégio de descobrir o sabor do verão com um homem mais maduro e consciente. Mas o dever ser não é ser de fato. Sentimentos contraditórios gritavam na cabeça. Amanda não gostava dos moleques. A irmã certa vez comentara que ela nunca observava os amiguinhos do colégio, mas seus pais e tios ao levá-los e buscá-los das aulas e festinhas. Júlio dormiu toda a manhã. Levantou-se para almoçar e não teve coragem para mirar nos olhos de Amanda.

Foi deitar-se novamente após a refeição e em seguida Amanda entrou no seu quarto, olhando-o profundamente nos olhos, no melhor estilo menina ousada que ela desde então sabia fazer tão bem.

  • Onde está Clara?
  • Fica tranquilo, ela tá dormindo no nosso quarto.
  • Amanda, o que você quer? A hora que eu for ao mar chamo vocês.
  • Não quero ir ao mar. Quero mais do mesmo de ontem.
  • Amanda, é melhor não. Não tem nada a ver. Eu sou muito velho pra você. Você precisa encontrar alguém que também esteja se descobrindo como você. Tem que ser recíproco.
  • Eu não tenho paciência para esses moleques. Eu quero um homem como você.
  • Mas Amanda, não tem nada a ver.
  • Tem sim. Eu sei que tem e sei que você também me quer. Quero que você seja meu primeiro homem de verdade.

Neste momento Júlio teve calafrios e imaginou como seria. Lindo. Uma ode à vida. Um retorno ao frescor da mocidade que não volta nunca mais. Um glorioso momento de anulação do tempo. A repetição do irrepetível. Uma reexperimentação do que já passou e se tornou arquivo velho da memória. Júlio a abraçou e a beijou longamente. Disse que não poderia fazer isso. Que seria injusto e desleal com ela. Amanda trancou a porta e tirou o vestido. Ficou nua em pelo. Júlio delirou ao ver aquele corpo perfeito, liso, magro, cintura fina, nenhuma marca, os seios do tamanho uma maçã, com a pele preservada do sol, mais macia e mais suave do que qualquer outra parte de pele do corpo. Era branca e brilhava, tinha algumas pintas que se espalhavam aleatoriamente fazendo a decoração daquele cômodo de doçura. Pareciam pinicadas de pincel feitas por alguém que ria e se divertia demais com aquilo. Uma brincadeira de pincelar no corpo feito de tela. Se Júlio fosse pintor ele faria ali sua obra-prima.

Ela veio lentamente. Deitou-se sobre ele, envolveu-o com os braços e começou a beijá-lo. Júlio estava inerte. Sua mente o censurava violentamente, pedia para que reagisse e impedisse o inevitável. O corpo, mais consciente da força irresistível do cosmos, não permitia reação. Gozava e se deliciava com o momento de esplendor máximo. Logo estava despido. Despediu-se do desperdício de energia que era ir contra o que não se pode lutar. Beijou todo o corpo de Amanda como quem faz um ritual sagrado de homenagem a todos os deuses do universo. Foi equilibrado e justo com todos os pedacinhos dela. Nenhuma parte ficou desassistida. Amanda fervia e se contorcia. Sua pele branca foi se tornando vermelha à medida que os beijos impudicos avançavam.

Quando se deu conta de que Júlio finalmente aceitara sua missão inevitável e passara a amá-la sem os entraves da razão, Amanda teve certeza de que aquele era o homem que sempre quisera ter e se sentiu pela primeira vez mulher. Quando o fio da meada é encontrado nada pode parar quem o detem. E assim que se sentiram Júlio e Amanda. Ele viu novamente a juventude. Lembrou dos banhos frescos de cachoeira da infância e adolescência. Dos mergulhos de mar nas noites quentes de verão. Das ameixas roxinhas, doces e frescas que costuma comer pela manhã. Que delícia essas frutinhas frescas com caldo dentro. Que soltam o licor ao serem mordidas. Ameixa, amora, cereja. Banho de chuva na grama da casa. Primeiro beijo com gosto de balinha de hortelã. Ela viu os futuros filhos. Sentiu-se capaz de fazer o que quisesse do mundo e no mundo e de amamentar. Sentiu o conforto e a segurança que o cheiro de homem de verdade lhe inspiravam. Sentiu-se forte como uma rocha ao ser penetrada por aquele homem grande, forte, de pele morena, cabelos lisos e negros e olhos profundos como os seus. O êxtase foi tão pleno que não sentiu dor. Sentia-se totalmente à vontade, relaxada, confiante, segura, acolhida, amada. O gozo não foi contável porque foi permanente. A cada movimento, a cada beijo, a cada carícia, gozava. E ele também.

Dormiram tão profundamente que não ouviram Clara os procurando pela casa. Por fim foi ao quarto do irmão, tentou entrar, mas estava trancada, achou estranho porque ele nunca a trancava. Bateu várias vezes, mas não teve resposta. O pai e a esposa já haviam ido ao mar e os esperavam. Então resolveu dar a volta pelo jardim e entrar pela janela. Gritou ao ver os dois dormindo. Não reagiram. Clara não compreendeu o que acontecia. Tentou acordá-los, mas não se mexiam. Estavam com sorrisos de plenitude. Foram empalhados no momento de êxtase máximo. Transcenderam as esferas da carne e da razão. Clara não conseguiu mais animá-los. Superaram para sempre a verdade do finito e foram viver na luz, juntos, gozando. A posição e o sorriso de satisfação eram tão impressionantes que foram enterrados juntos, entrelaçados, fundidos. E no epitáfio do casal se inscreveu: “Que descansem em gozo e sejam abençoados pelos deuses tutelares das intempestividades aqueles que descobriram o gozo eterno!”.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Isabela e o medo do vazio

Algo impressionante em nós, pessoas, é a capacidade que temos de viver sensações passageiras. Às vezes vivemos momentos tão bons que não queremos repeti-los com medo. Um medo de algo inexplicável que se torna estúpido. Medo da dor ou do vazio que decorre. Mas que dor se ela só existe na fértil imaginação humana que pode fazê-la cessar da mesma maneira que a inicia. Por outro lado, há também aquelas pessoas que se tornam caçadoras desses pequenos e efêmeros momentos de glória. Obsessivas e destemidas. Perdem-se no tempo e no espaço buscando eternamente o inexplicável e o inatingível pra quem procura e espera com afinco. Isto porque esses momentos e sensações são assim, fáceis e imprevisíveis. Inesperados. Viram-te e desviram-te com desapego pela massa abstrata. Pra que aconteçam tudo depende das suas expectativas. Quanto mais você as tiver, mais dificilmente eles, os momentos de sensação extrema, virão. Por isso que o importante é o equilíbrio e uniões que satisfaçam esta necessidade do universo e de umas pessoas com outras. Acho que já entendi tanto que não espero mais nada de nada nem de ninguém.

Alguém que conheceu este medo do amor desconhecido é Tomás, o destemido desta história que vou contar agora. Isto foi uma conversa que ele teve com Isabela no primeiro encontro forçado após uma noite de descoberta entre os dois. Isabela é a prudente e reprimida, queria fugir de tudo e viver no seu mundinho protegido por grades contra caçadores de rã. Já se arriscara duas vezes na vida e isso era suficiente. Não aceitava ser trocada. Não aceitava ser colocada em situação hierarquicamente inferior em beleza, desenvoltura, simpatia, inteligência e capacidade de divertir seus amados. A simples ideia de ser descartada por alguém ‘melhor’ a causava um desespero agudo observável somente em pessoas de extremo descontrole. Mas mesmo assim Tomás não perdeu o vigor de perseguir seu desejo porque tinha certeza da sua força. Não se entregou às negativas e às omissões. Depois de nada saber, partiu em busca de respostas que o satisfizessem. Queria olhar nos olhos de Isabela e saber se a noite que passaram juntos, no primeiro dia do ano, não havia significado nada. Se isso acontecesse, ele perderia toda a crença na intuição, na capacidade mágica de ser e de sentir, de saber pelo pensamento e pela movimentação das energias. Não era possível. Tamanha intensidade, tamanha conjunção de fatores e encontros fortuitos que antecederam a grande noite não poderiam ser em vão.

-        Foi tão bom ontem à noite.
-        Foi.
-        Por que você não responde minhas mensagens? Por que você não me atende?
-        Porque não quero nada com você.
-        Mas é mentira.
-        É mentira mesmo.
-        Então por quê?
-        Porque tenho medo, não quero me envolver, tenho outros objetivos no momento.
-        Não parecia isso ontem à noite.
-        Ontem à noite eu esqueci de tudo.
-        Mas esquecer de tudo se for assim é bom. Esquece de tudo pra sempre. Sua vida é uma merda se você só faz o que te faz bem quando esquece de tudo.
-        Talvez minha vida seja mesmo uma merda.
-        Então vamos tratar de melhorá-la já.
-        Não sei se quero. Tenho medo de mudanças. Tenho medo do desconhecido.
-        Mas não pode ser assim. Você não pode ser tão medíocre e absurda. Eu não me apaixonaria por alguém que tem essas ideias.
-        Você invadiu meu espaço e está me idealizando.
-        Você me abriu o espaço.
-        Abri, mas era primeiro dia do ano. Eu estava zonza de champagne. Você é bonito e atraente, eu não queria estar sozinha, e aí foi fácil não resistir.
-        Eu não concordo. Não foi só isso. Nós sabemos que não foi isso. Você acha que eu perderia meu tempo me impressionando com uma atitude patética e insensata como esta. Eu não tenho mais idade pra tolices. Eu sei quando acontece só uma noite e quando acontece algo mais. A energia que se movimenta não deixa mentir.
-        Mas eu tenho tanto a fazer. Não tenho tempo. Me deixa.
-        Quem não tem tempo pra si mesmo tá perdido. É preciso reencontrar o caminho.
-        Vai embora. Me deixa. Por favor.
-        Não posso.
-        Você deve.
-        Dever não é querer, nem poder.
-        Não quero, não posso. Isso não pode ficar assim.
-        Como vai ficar então?
-        Não sei.
-        Tudo se resolve num diálogo?
-        Nossas vidas se resolvem com o diálogo. Tudo pode dar certo. Um com o outro e tudo pode ser melhor.
-        Eu tenho muito medo de sofrer. Já sou escaldada.
-        Isso não é argumento. É preciso levar banhos de água fria infinitamente para que compreendamos. Não podemos viver pela metade com medo de banhos de água fria. Vai fundo, mete o pé, chuta a porta, deixa acontecer e vê o que vai ser. Não força a barra, nem pra acontecer o que não é e nem pra frear o que é. É só deixar ir e assim sempre saberemos. Não existe sofrimento infinito. Existem sofrimentos infinitos, mas nunca é o mesmo. Todos começam e terminam, como todos os seres e ciclos do universo.
-        Você está forçando a barra agora pra ser. Se bem que o que você diz faz sentido, mas é tão difícil acreditar. Você fala bonito. É corajoso. Você envolve. E é disso que eu tenho medo. Os mais envolventes, atraentes, brilhantes e corajosos são os mais suscetíveis aos sabores da espontaneidade. Nunca saberei quando vai se cansar de mim e arrumar outra. Já vi este filme. Quero o bom moço, estável, comum, confiável. E não um romântico louco, com rostinho bonitinho, elegante, cheiroso, pinta de don juan e cheio de histórias bonitas.
-        Mas e a paixão da vida, a emoção? Você vai se entediar. Prefiro viver mil amores intensos a um insosso.
-        Será mesmo?
-        Como vou saber se não experimentar?
-        Experimentando algumas poucas vezes.
-        Não, nem mil vezes são suficientes pra saber se a milésima primeira não seria a experiência definitiva. As pessoas às vezes se apaixonam pra sempre, por mais volúvel que um homem destemido, livre e suscetível aos sabores da espontaneidade possa ser.
-        Eu acho que já experimentei o suficiente.
-        Não me experimentou.
-        Eu sei como você é.
-        Não sabe.
-        Sei sim. Sei até que você é capaz de me surpreender constantemente. Sei que é capaz de me satisfazer. Sei que é capaz de me divertir. Sei que é capaz de me manter brilhante e estimulada. Sei que é capaz de sempre me provocar com sagacidade. Sei que é um bom amante, sempre disposto e atencioso. E sei também que por ser assim é plenamente capaz de um dia eu não ser mais suficiente e você encontrar outro alguém que te apresente novas questões a serem vividas.
-        Pra quê essa insegurança toda? Isso só te leva a desperdiçar a vida. Isso só te leva a repelir as pessoas boas e que buscam a evolução. Talvez esta seja uma das suas últimas chances. Não faça isso, por favor. Você tem muito brilho e doçura pra se amargar assim. Eu sei. Eu sinto. Minha intuição grita com força. Ela não se engana, não com tanta veemência. Ou você acha que eu faria todo este esforço caso você fosse a pessoa tola que finge ser? Você não é assim. Seja autêntica. Seja o que você é. Deixa acontecer. Deixa ser. Deixa estar.
-        Me deixa em paz, por favor.
-        Não vou. Se você realmente quer que eu te deixe, você vai ter que me experimentar e fazer com que eu me canse de você, como você acabou de dizer. Quero que minha espontaneidade imprevisível incida e que eu conheça outra pessoa melhor que você pra eu te abandonar. Enquanto isso não acontecer, não posso te deixar porque você é a pessoa que eu quero. Você precisa entender que se eu encontrar outra pessoa e te deixar por ela, vai ser porque o tempo terminou e outro ciclo vai iniciar. O que é natural. Acontece. Coisas começam e terminam, e é sempre assim. E talvez eu sirva pra você entender exatamente isso. Pra nós vivermos o máximo por algum tempo e depois tudo acabar. Pra começar outros momentos máximos. E assim sempre. Ou não. Ou eu sirvo pra viver com você a sensação máxima pra sempre e pronto. Quem pode saber se não nós dois e os dias?
-        E eu vou fazer o que o coração mandar? E assim tudo vai ficar mais fácil? Tudo mais leve? Tudo mais fluido?
-        Isso. E é fácil. Acredite em mim, por favor.
-        Ficar com você é tudo o que eu mais preciso agora. E talvez justamente por isso eu não sei como lidar e bloqueio. É incrível observar o poder do pensamento e de como eu venho te visualizando há algum tempo. Eu sonhei com você todas as noites e dias, acordada ou dormindo. Intencionalmente ou não. E você era assim. Este rosto. Essa textura de pele. Essa doçura no agir, no beijar, no abraçar. E você apareceu assim. Inesperadamente. No penúltimo dia do ano. E depois de novo no último dia do ano, da mesma maneira inesperada e sem sentido. E eu desde a primeira vez que te vi já sabia que era você, mas como nada acontecia eu duvidei. Fiquei ansiosa. Até que você me disse que estaria na mesma festa de reveillón que eu. Quando cheguei procurei você por todos os lados. Andei todo o salão. A parte externa. O pátio. Não vi você, não vi seus amigos. Até que quando eu bebia vodka pura pra esquecer pensando que você já poderia ter saído com outra ou que poderia nem ter ido por conta dessas forças cretinas do acaso e do universo que também não é perfeito, você me abraça pelas costas, me vira, olha fundo nos olhos e me beija enquanto eu ficava paralisada de surpresa e de incredulidade.
-        Aí depois daquele beijo louco e que esclareceu todo o universo em 10 minutos você me pergunta se eu não deveria ter pedido um beijo antes. E eu digo que beijo não se pede, se beija.
-        E pronto.
-        Pronto. Da mesma maneira que você sempre soube, desde aquele encontro maluco do dia trinta, eu também. E tive mais certeza ainda no encontro do dia trinta e um.
-        Mas é exatamente isso que me assusta. Foram dois encontros malucos, paralisantes, mágicos. É coisa demais pra um coração pequeno.
-        Mas nós temos grandes corações. E se não tivermos, vamos ter a partir de agora. Você só precisa abri-lo para mim.

Sem dizer mais nada Isabela o abraça forte, chora em seu ombro, pede desculpas por saber que muita alegria faz também sofrer e por deixar que isso a impeça de viver mais além, pede seu coração em troca de todo o amor do mundo e desabrocha como a mais bela flor de Amarílis.

Os dois dançaram naquela tarde quente de domingo, segundo dia do ano, com uma chuva de manga, típica do intenso verão tropical. Um brinde aos dois. Dançaram à vida porque entenderam que ela deve ser assim, a experiência sensorial do universo sobre si mesmo. E é isso que somos, somente. Pedaços sensoriais para que o universo possa sentir a si mesmo e a todos os deslumbramentos que ele oferece.

Consumaram o amor e dormiram abraçados. E no outro dia, Tomás, sentindo a plenitude do objetivo alcançado, estufou o peito, vestiu-se silenciosamente e foi embora sem nada dizer. Junto com o amor, a tragédia se consumara porque dificilmente eles existem separados.