Algo impressionante em nós, pessoas, é a capacidade que temos de viver sensações passageiras. Às vezes vivemos momentos tão bons que não queremos repeti-los com medo. Um medo de algo inexplicável que se torna estúpido. Medo da dor ou do vazio que decorre. Mas que dor se ela só existe na fértil imaginação humana que pode fazê-la cessar da mesma maneira que a inicia. Por outro lado, há também aquelas pessoas que se tornam caçadoras desses pequenos e efêmeros momentos de glória. Obsessivas e destemidas. Perdem-se no tempo e no espaço buscando eternamente o inexplicável e o inatingível pra quem procura e espera com afinco. Isto porque esses momentos e sensações são assim, fáceis e imprevisíveis. Inesperados. Viram-te e desviram-te com desapego pela massa abstrata. Pra que aconteçam tudo depende das suas expectativas. Quanto mais você as tiver, mais dificilmente eles, os momentos de sensação extrema, virão. Por isso que o importante é o equilíbrio e uniões que satisfaçam esta necessidade do universo e de umas pessoas com outras. Acho que já entendi tanto que não espero mais nada de nada nem de ninguém.
Alguém que conheceu este medo do amor desconhecido é Tomás, o destemido desta história que vou contar agora. Isto foi uma conversa que ele teve com Isabela no primeiro encontro forçado após uma noite de descoberta entre os dois. Isabela é a prudente e reprimida, queria fugir de tudo e viver no seu mundinho protegido por grades contra caçadores de rã. Já se arriscara duas vezes na vida e isso era suficiente. Não aceitava ser trocada. Não aceitava ser colocada em situação hierarquicamente inferior em beleza, desenvoltura, simpatia, inteligência e capacidade de divertir seus amados. A simples ideia de ser descartada por alguém ‘melhor’ a causava um desespero agudo observável somente em pessoas de extremo descontrole. Mas mesmo assim Tomás não perdeu o vigor de perseguir seu desejo porque tinha certeza da sua força. Não se entregou às negativas e às omissões. Depois de nada saber, partiu em busca de respostas que o satisfizessem. Queria olhar nos olhos de Isabela e saber se a noite que passaram juntos, no primeiro dia do ano, não havia significado nada. Se isso acontecesse, ele perderia toda a crença na intuição, na capacidade mágica de ser e de sentir, de saber pelo pensamento e pela movimentação das energias. Não era possível. Tamanha intensidade, tamanha conjunção de fatores e encontros fortuitos que antecederam a grande noite não poderiam ser em vão.
- Foi tão bom ontem à noite.
- Foi.
- Por que você não responde minhas mensagens? Por que você não me atende?
- Porque não quero nada com você.
- Mas é mentira.
- É mentira mesmo.
- Então por quê?
- Porque tenho medo, não quero me envolver, tenho outros objetivos no momento.
- Não parecia isso ontem à noite.
- Ontem à noite eu esqueci de tudo.
- Mas esquecer de tudo se for assim é bom. Esquece de tudo pra sempre. Sua vida é uma merda se você só faz o que te faz bem quando esquece de tudo.
- Talvez minha vida seja mesmo uma merda.
- Então vamos tratar de melhorá-la já.
- Não sei se quero. Tenho medo de mudanças. Tenho medo do desconhecido.
- Mas não pode ser assim. Você não pode ser tão medíocre e absurda. Eu não me apaixonaria por alguém que tem essas ideias.
- Você invadiu meu espaço e está me idealizando.
- Você me abriu o espaço.
- Abri, mas era primeiro dia do ano. Eu estava zonza de champagne. Você é bonito e atraente, eu não queria estar sozinha, e aí foi fácil não resistir.
- Eu não concordo. Não foi só isso. Nós sabemos que não foi isso. Você acha que eu perderia meu tempo me impressionando com uma atitude patética e insensata como esta. Eu não tenho mais idade pra tolices. Eu sei quando acontece só uma noite e quando acontece algo mais. A energia que se movimenta não deixa mentir.
- Mas eu tenho tanto a fazer. Não tenho tempo. Me deixa.
- Quem não tem tempo pra si mesmo tá perdido. É preciso reencontrar o caminho.
- Vai embora. Me deixa. Por favor.
- Não posso.
- Você deve.
- Dever não é querer, nem poder.
- Não quero, não posso. Isso não pode ficar assim.
- Como vai ficar então?
- Não sei.
- Tudo se resolve num diálogo?
- Nossas vidas se resolvem com o diálogo. Tudo pode dar certo. Um com o outro e tudo pode ser melhor.
- Eu tenho muito medo de sofrer. Já sou escaldada.
- Isso não é argumento. É preciso levar banhos de água fria infinitamente para que compreendamos. Não podemos viver pela metade com medo de banhos de água fria. Vai fundo, mete o pé, chuta a porta, deixa acontecer e vê o que vai ser. Não força a barra, nem pra acontecer o que não é e nem pra frear o que é. É só deixar ir e assim sempre saberemos. Não existe sofrimento infinito. Existem sofrimentos infinitos, mas nunca é o mesmo. Todos começam e terminam, como todos os seres e ciclos do universo.
- Você está forçando a barra agora pra ser. Se bem que o que você diz faz sentido, mas é tão difícil acreditar. Você fala bonito. É corajoso. Você envolve. E é disso que eu tenho medo. Os mais envolventes, atraentes, brilhantes e corajosos são os mais suscetíveis aos sabores da espontaneidade. Nunca saberei quando vai se cansar de mim e arrumar outra. Já vi este filme. Quero o bom moço, estável, comum, confiável. E não um romântico louco, com rostinho bonitinho, elegante, cheiroso, pinta de don juan e cheio de histórias bonitas.
- Mas e a paixão da vida, a emoção? Você vai se entediar. Prefiro viver mil amores intensos a um insosso.
- Será mesmo?
- Como vou saber se não experimentar?
- Experimentando algumas poucas vezes.
- Não, nem mil vezes são suficientes pra saber se a milésima primeira não seria a experiência definitiva. As pessoas às vezes se apaixonam pra sempre, por mais volúvel que um homem destemido, livre e suscetível aos sabores da espontaneidade possa ser.
- Eu acho que já experimentei o suficiente.
- Não me experimentou.
- Eu sei como você é.
- Não sabe.
- Sei sim. Sei até que você é capaz de me surpreender constantemente. Sei que é capaz de me satisfazer. Sei que é capaz de me divertir. Sei que é capaz de me manter brilhante e estimulada. Sei que é capaz de sempre me provocar com sagacidade. Sei que é um bom amante, sempre disposto e atencioso. E sei também que por ser assim é plenamente capaz de um dia eu não ser mais suficiente e você encontrar outro alguém que te apresente novas questões a serem vividas.
- Pra quê essa insegurança toda? Isso só te leva a desperdiçar a vida. Isso só te leva a repelir as pessoas boas e que buscam a evolução. Talvez esta seja uma das suas últimas chances. Não faça isso, por favor. Você tem muito brilho e doçura pra se amargar assim. Eu sei. Eu sinto. Minha intuição grita com força. Ela não se engana, não com tanta veemência. Ou você acha que eu faria todo este esforço caso você fosse a pessoa tola que finge ser? Você não é assim. Seja autêntica. Seja o que você é. Deixa acontecer. Deixa ser. Deixa estar.
- Me deixa em paz, por favor.
- Não vou. Se você realmente quer que eu te deixe, você vai ter que me experimentar e fazer com que eu me canse de você, como você acabou de dizer. Quero que minha espontaneidade imprevisível incida e que eu conheça outra pessoa melhor que você pra eu te abandonar. Enquanto isso não acontecer, não posso te deixar porque você é a pessoa que eu quero. Você precisa entender que se eu encontrar outra pessoa e te deixar por ela, vai ser porque o tempo terminou e outro ciclo vai iniciar. O que é natural. Acontece. Coisas começam e terminam, e é sempre assim. E talvez eu sirva pra você entender exatamente isso. Pra nós vivermos o máximo por algum tempo e depois tudo acabar. Pra começar outros momentos máximos. E assim sempre. Ou não. Ou eu sirvo pra viver com você a sensação máxima pra sempre e pronto. Quem pode saber se não nós dois e os dias?
- E eu vou fazer o que o coração mandar? E assim tudo vai ficar mais fácil? Tudo mais leve? Tudo mais fluido?
- Isso. E é fácil. Acredite em mim, por favor.
- Ficar com você é tudo o que eu mais preciso agora. E talvez justamente por isso eu não sei como lidar e bloqueio. É incrível observar o poder do pensamento e de como eu venho te visualizando há algum tempo. Eu sonhei com você todas as noites e dias, acordada ou dormindo. Intencionalmente ou não. E você era assim. Este rosto. Essa textura de pele. Essa doçura no agir, no beijar, no abraçar. E você apareceu assim. Inesperadamente. No penúltimo dia do ano. E depois de novo no último dia do ano, da mesma maneira inesperada e sem sentido. E eu desde a primeira vez que te vi já sabia que era você, mas como nada acontecia eu duvidei. Fiquei ansiosa. Até que você me disse que estaria na mesma festa de reveillón que eu. Quando cheguei procurei você por todos os lados. Andei todo o salão. A parte externa. O pátio. Não vi você, não vi seus amigos. Até que quando eu bebia vodka pura pra esquecer pensando que você já poderia ter saído com outra ou que poderia nem ter ido por conta dessas forças cretinas do acaso e do universo que também não é perfeito, você me abraça pelas costas, me vira, olha fundo nos olhos e me beija enquanto eu ficava paralisada de surpresa e de incredulidade.
- Aí depois daquele beijo louco e que esclareceu todo o universo em 10 minutos você me pergunta se eu não deveria ter pedido um beijo antes. E eu digo que beijo não se pede, se beija.
- E pronto.
- Pronto. Da mesma maneira que você sempre soube, desde aquele encontro maluco do dia trinta, eu também. E tive mais certeza ainda no encontro do dia trinta e um.
- Mas é exatamente isso que me assusta. Foram dois encontros malucos, paralisantes, mágicos. É coisa demais pra um coração pequeno.
- Mas nós temos grandes corações. E se não tivermos, vamos ter a partir de agora. Você só precisa abri-lo para mim.
Sem dizer mais nada Isabela o abraça forte, chora em seu ombro, pede desculpas por saber que muita alegria faz também sofrer e por deixar que isso a impeça de viver mais além, pede seu coração em troca de todo o amor do mundo e desabrocha como a mais bela flor de Amarílis.
Os dois dançaram naquela tarde quente de domingo, segundo dia do ano, com uma chuva de manga, típica do intenso verão tropical. Um brinde aos dois. Dançaram à vida porque entenderam que ela deve ser assim, a experiência sensorial do universo sobre si mesmo. E é isso que somos, somente. Pedaços sensoriais para que o universo possa sentir a si mesmo e a todos os deslumbramentos que ele oferece.
Consumaram o amor e dormiram abraçados. E no outro dia, Tomás, sentindo a plenitude do objetivo alcançado, estufou o peito, vestiu-se silenciosamente e foi embora sem nada dizer. Junto com o amor, a tragédia se consumara porque dificilmente eles existem separados.