Foi dizendo que descobri quem me acompanhava. Foi inteirando-a que soube com quem eu lidava em mim mesmo. Uma sacola plástica sufoca quatro mil pensamentos, mas uma camisa de força sufoca uma vida inteira. Ela sentada ao meu lado, com as mãos uma sobre a outra. O cabelo caía pelo rosto incomodando. A posição era confortável e ela jamais se atreveria a arrumá-lo. Eu queria que ela se visse e fui dizer a ela como ela estava. Continuou indiferente. Sempre me fora assim. Que tipo de amor se mistura à indiferença. Que tipo de escravo mantém sua devoção ungida face ao maior crime de todos os tempos que é a indiferença. Eu. Ela. Um e outro. No bar as coisas se revelam. No dia seguinte elas impressionam. Ninguém vê o que todos querem ver. Mas ninguém vê não porque não pode, mas porque não quer. Junto minhas mãos ao redor dela pra ver se consigo viver em paz. Ela deixa, não importa, e faz um brinde à indiferença. Sobreviver é muito difícil nesses tempos de amor indiferente. Prefiro a loucura do amor doido, doído. Aquele que esteriliza todas as possibilidades de ter outros pensamentos, senão ela. Ele faz querer que ela viva todas as coisas por mim e comigo. É difícil sentar, esperar e ouvir. O que ela quer ser não serve justamente porque ela não sabe ser. Amar é bom e amar demais faz sofrer. Mas amar de menos faz sofrer mais ainda. Se se ama, se ama! Não se pode amar sem amar. Doer sem machucar. Gritar sem voz. Correr sem perna. Não se pode. Nem aqui nem longe. Nem nas estradas infinitas que me levam a qualquer lugar menos aonde eu gostaria de ir. Isso é porque elas, as estradas, não querem que eu chegue nunca aonde eu quero ir. Não querem que eu pare de viajá-las. E assim o tempo passa e andamos mais 942 milhões de quilômetros todos os anos, parados, sem querer. Uma paz invade a alma quando se pensa que mesmo parado andamos tudo isso, e a 107 mil quilômetros por hora. Vale a pena correr tanto, portanto. Não sei mais até porque não sei se aquelas mãos vão ser meu par. Dançar a noite toda, juntos. Indo embora sempre pra dar mais uma volta ao sol. Sangrando, sendo puxado pra baixo pela gravidade, com o couro esticando, enrugando, e a vida murchando para dar espaço a outras vidas. Se dessa vez pelo menos ela fosse embora, sem indiferença e não demorasse a voltar pra curar a dor. Eu ficaria contente. Não precisaria mais de tantas coisas e apetrechos pra fazer minha casa mais parecida com a natureza. E o bote salva-vidas continuaria remando em busca de vidas a salvar. A roda gigante continuaria rodando e se gastando. Eu preciso de todo o cuidado do mundo, e não da indiferença. Eu respeito o mundo, a liberdade, quem eu sou e quem ela é. E parece que ela não sabe. Não é tão simples fazer as coisas boas até porque elas não existem! Preciso inventar. O estrago. O buraco. O escândalo. As mãos. Tudo me faz pensar nas mãos! Só mãos, dedos, unhas, palmas e almofadas de mão sabem dizer alguma coisa sobre ela, que não diz, que não decide o que é bom de acordo com a previsão. Seria eu o que eu escolhi ser? E mais, a ponto de aceitar?
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