Fazer o amor e ver o sol nascer e depois se por. Perder o fio do tempo, o sentido do sereno caindo. É lindo de morrer ver o dia nascer com os braços latejando, a alma em frangalhos por causa das sensações. O céu do sertão me traz imensa saudade, na imagem, na mente, na vontade de que ele se materialize novamente. Aquela coisa do sol engolir o rio ou o rio embolar com o sol. A madrugada tem tanto amor. É amor descabido que vira vazio. Amor demais faz o saco murchar. Murcha como bola ao sol. Porque o sol é tão forte e bonito que enche, enche, enche e depois esvazia pra encher de novo. Quem só quer amor e mais nada quer tudo. Porque tudo é o que não cabe em lugar nenhum. Presença do tudo junto com nada, tanto faz, são tantos instantes. Um dia a consciência surge e chupa sua cabeça, presença, verdade e histerias. Você fica paralisado. Vendo o verde em tudo. Igual aquele preto que você vê quando fecha os olhos. Mas não, quando a consciência surge e chupa sua presença você vê verde. Tudo verde, coagulado, como se o sangue da natureza, das árvores, das veias abertas da terra, rasgadas, estivessem coagulando. E você vê. Vê e chora. Chora porque vê, chora porque sente, chora porque é e porque não queria que assim fosse. Às vezes ver não é bom. Mas é, é sim! É bom, melhor ver, ver tudo, e doer junto com o mundo, sentir com ele, ouvir sua pulsação, a respiração ofegante, meio cansada, cambaleante. E assim ouve o coração dele ser rasgado de fora a fora. Mas pra que se tudo é conserto, regeneração. A guerra rasga os homens. A dor mumifica. A verdade transtorna. Quase todo o prazer que queremos é perturbador. Mas mais perturbador ainda é pensar o tamanho do prazer que podemos ter se ao menos conseguíssemos renunciar ao prazer pequeno. Mas o prazer pequeno é um gosto tão gostoso. Ah, dilúvio, ah aleluia, ah sabão de côco, ah cheiro de cabelo de mulher, ah sal do mar na boca, ah vento na testa, ah música. Acho que de agora em diante só quero saber do meu gosto, e não mais do gosto dos outros que sempre gostei. É a lua que vira e faz o mar da terra virar.
domingo, 19 de junho de 2011
quarta-feira, 15 de junho de 2011
É.
Era só um pedaço de carne crua. Mas doía tanto que nem parecia de verdade. Uma mentira passada pra trás pelo tempo. Um doce azedo. Uma coalhada branca despedaçada com calçadas recortadas. Mas eu só sei das vezes que tentei ser, em vez de estar. Todas resultaram em grande tragédia, física e pateticamente emocional. Som, sim, pois tudo o que é emocional é patético e tudo o que é patético e desprezível é beligerante. Mata. Come. Atropela.
Como ele disse um dia que se fosse pra atropelar, ele atropelaria. E eu disse que não. Eu não atropelaria. Faria o que fosse mais conveniente. Passar por cima não é atropelar, é somente buzinar e não frear, sabe?!
Fazer o quê se as agruras do amor consomem os dias, as noites, as tardes, as manhãs, os desejos, os desesperos. Eu pelo menos tenho noção plena de que sou ridículo, patético, desesperadamente translúcido, não falo o que vejo e não vejo o que falo na mesma medida em que minto e monto bois. Ele não, acha que sabe muito, que pode falar e se opor pelo mero exercício, e pra isso tira do inferno, ou do cu, argumentos sebosos e amebiasíticos para expor como quem expõe a grandeza. O pior é que eu também sou, sou exatamente assim, faço exatamente isso. A diferença é que, como estou fazendo agora, faço sempre, admito, reconheço, sou um ser da mais alta pateticidade. Ele não! Fala a mesma idiotice, mas com autoridade, se acha. E é ridículo porque não convence ninguém, nem as toupeiras, mas enche o peito pra falar o quanto sou patético por agir como ele. E como ele não sendo como ele, mas que nem ele.
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