A identidade de Alexia era forte demais para suportar a fraqueza de Pedro. Sentiam-se vivos como os candelabros de um jantar ao ar livre. Mas não sabiam até onde ir. Tinham medo do escuro que é o dia depois do primeiro encontro. Passear por toda a cidade, de mãos dadas, visitar orquídeas, museus e palácios, tomar sorvete, ver filmes e ouvir discos ao vivo. Tudo não passa de efemeridades. Um momento no qual se perdem os laços entre a vida e a vida real. Elas não dialogam, as duas vidas.
Alexia passa os dedos por entre os cabelos. Não pensa em nada a não ser surpreender. De repente quer dizer algo que não sirva pra nada. Algo assim, do além e desinteressado pra ninguém. Lembra de como é bom ter alguém pra trocar mensagens de celular na madrugada, na manhã de um dia cheio, na noite que chove e o céu fica vermelho de vergonha. Fala ao telefone silêncios de meia hora. Fala palavras como quem dedilha um piano, tecla por tecla, sílaba por sílaba. O nexo se encaixa depois como o mel que adoça o café forte amargo das tardes de trabalho. É tão bom. Mas tão bom. Tão bom que nem parece que vai usar aquele café pra trabalhar depois.
Eu sei que você quer ficar comigo pra sempre, pensa Alexia, mas se você disser, vai estragar tudo. Nada como se enterrar na masmorra pra esperar o tempo passar e ver que ele de fato não volta. O tempo não volta, mas as pessoas voltam, assim como Pedro voltou para Alexia depois de anos de esquecimento. E assim como Alexia voltou para Pedro quando já imaginava nem mais lembrar-se dele. Sim, um se lembra do outro, e quando se viram não houve dúvida. Nenhuma. Foi tão bonito. Mas tão bonito que eu queria ter visto. Os olhos dois devem ter brilhado.
Seria naquele dia, um sábado qualquer do inverno. Um inverno cinza, cheio de roupa escura glamorosa. Com passeios programados e um suco de amora azeda pra ser tomado. Um dia como todos os outros que têm fim. Eles dariam o beijo que nunca foi dado do amor que sempre existiu. Um romance que os levava a fugir e se esconder. Sem saber de que. Somente sabiam que tinham que fugir pra algum lugar onde fosse deles. Só deles. Fugindo em busca do lugar eles nunca mais se viram. Até ontem. O dia do beijo nunca dado do amor que sempre existiu.