terça-feira, 28 de dezembro de 2010

A Tragédia de Sofia - II

A mulher mais impressionante da história. Coisas que homens comuns não conseguem entender. Elas possuem a beleza ímpar de seres iluminados, daqueles que nunca passam despercebidos pela história. Os dias a sua volta são sempre envolvidos por uma luminosidade singular, um sépia distorcido e que se colore no ponto exato da beleza que só existe no mundo encantado. Como um quadro ou uma fotografia retocada de Jan Saudek. A vida perto desses seres parece um filme rodado no campo em cenas de longas projeções em que a beleza fotográfica satisfaz qualquer necessidade de enredo. O enredo é a vida em si, suas várias cores, ou as várias cores que somente seres iluminados ou os seres abençoados por viver próximos aos iluminados conseguem ver. Eu não sei se vejo isso todos os dias, mas quando estou com Sofia ou com Jane posso.

Em dados momentos o turbilhão de pensamentos insensíveis embaça a visão. O discernimento se torna falho. E é nesses momentos, de visão turva ou de iluminação solar intensa, como sofreu Mersault de Camus ao matar o árabe, que indivíduos abençoados renegam a sorte que lhes foi concedida e caem em tragédia. É preciso muita força para sucumbir e quebrar o ciclo de predileção dos deuses tutelares das intempestividades. Mas uma vez isto feito, é difícil retroceder. O sujeito antes abençoado se distancia brutalmente dos seres iluminados e da vida feliz da luminosidade multicolorida. As cores não mais se diferenciam com tanta nitidez. A evidência falha. Tudo é e não é mais ao mesmo tempo numa sucessão invencível à pequenez da razão humana.

E foi assim que me vi ao saber da gravidez de Jane. Soluçante, temeroso de que meus dias plenos tivessem acabado. O absoluto poderia até não terminar, mas seria outro, outra forma, outras cores nos dias, outros seres iluminados a me inebriar. O ciclo se rompera definitivamente. O gosto de gostar dos outros e de viver de sua luz era uma plenitude encerrada. Tinha que descobrir novas maneiras de tocar o barco.

  • O que você acha disso?
  • Eu tenho mesmo que achar algo? Não posso só passar o tempo e esperar ver.
  • Pode. Mas assim é fácil.
  • E eu quero que seja fácil.
  • Sofia já sabe?
  • Deve saber. Não falei, mas ela sabe. Ela é uma ponta sensorial do universo.
  • O braço que serve pro universo sentir toda a beleza que ele é?
  • Aham.
  • Mas um dia teremos que verbalizar isso e tomar ações práticas.
  • Ou não.
  • Não?
  • Não. Podemos só deixar as coisas acontecer. Sofia vai saber fazer o melhor a ser feito, como ela sempre sabe.
  • Eu sinto ciúmes quando você fala assim dela.
  • Será que sente? Não seria vontade de ser ela?
  • Talvez. Tudo se confunde. Antes de ficar com você era tudo muito simples.
  • Por isso que ficamos, pra destruir nossa paz, fabricar tragédias.
  • Mas esta tragédia é viva, traz vida.
  • Porque somos seres iluminados. Ou pelo menos o são você e Sofia. O terceiro elemento,o aglutinador, que sou eu, é quem desalinha a iluminação.
  • Você é o causador da tragédia.
  • Ninguém pode ser culpado, apontado, julgado e condenado por amar. O amor nunca causa tragédia. Causa vida. Vida, vida e mais vida.
  • Mas pode também trazer muita dor, sofrimento e morte.
  • Aí não é amor. É qualquer outra coisa.
  • Qualquer outra coisa que não se sabe?
  • Que não se sabe. Preciso de água por favor.

Não corri pra avisar Sofia. Eu sabia que ela sabia. Que sempre soubera. O meu filho não poderia ser dela, embora nos amássemos como o vento ama as árvores ao contemplá-las com beijos e brisas suaves no entardecer. O amor tem dessas coisas. Muitas vezes ele anula. Ou muitas vezes ele é tão grande que transborda e pessoas em volta acabam recebendo-o. Como Jane recebera o transbordamento do amor meu e da Sofia. Muito amor não cabe em duas pessoas.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

A Estiva

Diariamente acordava às 4 horas para comer seu bolo frio e seco com café quente e doce. A vida amarga o fazia pensar nas pessoas. Isso bastava para aquecer o coração. O modo sombrio, frio e vazio como via sua existência não se assemelhava ao modo como via a dos outros. Bastava a vida de amarga e fria, o café que fosse doce e quente. Seu trabalho manual, violento e bruto o fazia pensar nas coisas. Ele preferia assim, não queria gastar sua imaginação e sensibilidade com planilhas, relatórios e escritórios engravatados. Melhor fosse a jornada de 12 horas sob sol de 40 graus no cais do porto estivando madeira, aço, ferro-gusa, carvão, toneladas de brinquedos chineses. Porque assim pelo menos ele pensava em outras coisas. Mais profundas. Mais sofisticadas. Mais emocionantes do que pensar em como fazer o que deve ser feito. Quis ser ator um dia, por ser forte, mas não foi capaz. Era introspectivo demais. Uma abundância de sentimentos incapaz de ser externada. Vivendo sob uma caixa-preta blindada junto com anseios humildes e despretensiosos. O estivador não pára pra pensar porque ele não pára de pensar. Os dedos exprimem a arrogância de homens distantes. Ninguém os quer a não ser para trabalhar e morrer. Mas o estivador quer pensar, humildemente, no vazio dos contêineres que carrega. A única coisa capaz de salvá-lo é o céu quando manda chuva. Porque o trabalho precisa ser interrompido caso a carga seja doce e possa derreter. O coração do estivador é doce, mas não derrete como açúcar em chuva e pessoas feitas de açúcar quando tomam chuva. O estivador carrega nos braços a globalização. O comércio que não é pra ele, não é feito por ele, e não faz nada pra ele porque está muito ocupado em fazer a si mesmo. O estivador quando pensou nisso realmente não entendeu por que pessoas que moram do outro lado do mundo precisam comprar brinquedos ou alface ou ferro ou terra ou comida de pessoas que moram perto dele. As pessoas deveriam viver com o que têm ao seu alcance, em vez de mandar trazer para elas de navio. Ele não entendeu como uma moda pode subverter tanto a capacidade cognitiva humana e fazer esta raça perseguir o fundo do poço com tanta avidez. O estivador não faz nada com sede ou pressa. Pra ele o tempo é infinito e ele nem mesmo se preocupa em estimá-lo, acelerá-lo ou querer coisas que nele se apresentem no futuro. O futuro é o mesmo passado. O presente é a única coisa diferente que ele tem porque é quando ele pensa. Quando pensa ele faz. Mas faz tudo igual. Tudo de novo. E quando ele pensa que fez tudo igual tudo se torna passado, e por isso é tudo igual. E se ele pensa que vai fazer diferente, então é futuro, e no futuro as coisas são como no passado. Não dá para saber como o estivador organiza estes conflitos temporais. Desconhece estratégias para enganar o tempo e enganar a si mesmo como bloqueador solar. Se o dia acaba, ele vai pra casa dormir. Um pedaço de chão com algumas espumas, parede verde-piscina desbotada e rabiscada pelo tempo que insiste em ser o mesmo no passado e no futuro. Um copo, um fogareiro, uma xícara sem píres, uma colher pequena e outra grande. Um prato de esmalte branco com o fundo raspado, evidência grotesca das suas alimentações. Cinco corotes de aguardente. Um pote de metal que é usado como panela. O estivador não precisa de mais do que isso para viver e continuar estivando até o homem terminar sua peregrinação ao fundo do poço.

domingo, 5 de dezembro de 2010

A Tragédia de Sofia - I

Conhecia Sofia desde sempre. Um espírito elevado que passava por mim nos momentos de crescimento. Era uma espécie de ser imprescindível para toda a minha existência, apesar das centenas de incompatibilidades que variavam da ideologia à escatologia. Eu tinha comigo que Sofia não sabia da sua importância, mesmo que fizesse de tudo para compreender.

As marcas das suas mãos pequenas eram simbólicas. Tinham tocado muitas partes de um mundo confuso deixado para trás em buscas imprudentes por redenção. Imprudência e displicência. Essas seriam duas boas palavras para descrever os arroubos de juventude da Sofia que sempre estava comigo, em mim e sobre mim. Eu precisava dela como preciso da água, para tomar muitos goles dela ao longo do dia e sentir o poder daquele líquido que desgruda as entranhas quando desce, insosso, mas vigoroso de energia.

Sofia oscilou durante toda a vida. Durante toda a nossa vida. Me aconselhou, odiou, espancou, proibiu, julgou e condenou de acordo mais com seu humor do que com meus atos. E eu, suscetível, sempre me submeti. De qualquer forma, eu gostaria muito que ela fosse capaz de se ver quando ficava irritada. O quanto isso parecia sublime. Beleza angelical e caótica. A estética da destruição plena. O sabor do saber impudico. Aquele saber saboroso que só serve pra prover o carnal. Sei que tenho que fazer alguma coisa sobre isso. A estética da progressão dos ventos, dos tempos, das tormentas do mar, do ser, do dizer, do viver e acreditar que a matéria pode se fundir, tudo junto, na fusão incessante da verdade que não importa porque não está escrita e nunca estará.

Ela sempre me dizia que preferia a maresia ao calor do sol. Eu sou do fogo, diferente. Gosto da queimação do calor. Embora as anulações auto-impostas tenham me levado a um caminho muito distinto daquele traçado inicialmente. Quando penso no passado sinto a dor de ter vivido outras muitas vidas que não eram minhas. Retomar as rédeas do tempo é o resultado, a implicação máxima de um exercício de disciplina que precisa ser praticado constantemente, mas não com obsessão, que é como sempre faço as coisas, mas com serenidade, que é como começo a visualizar para as coisas. Por isso sempre precisei e preciso da Sofia, serena e pacífica em sua irredutibilidade e cólera passageira.

Nossos caminhos entremeados de desafetos, descaminhos e ilusão foram pavimentados com desencontros que poderiam se traduzir em formas de gelo rachadas, daquelas que só percebemos o buraco quando já se está vazio. A pedra não se solidifica porque vaza enquanto a água encontra seu verdadeiro destino condicionada pela baixa temperatura. Quero saber do próximo passo, do próximo dia, da próxima estação e da próxima temperatura. Será que saberemos considerar os dias. Separá-los entre aqueles que importam e aqueles que não. Aqueles em que suamos de verdade a água ingerida com sede ou aqueles em que mentimos. Sofia sabe quando saberá saber dos dias. Mas não sabe hoje. Não sabe saber porque sabe que não pode. Ou sabe que não quer e que não deve. Mas o dever ser é insuficiente pro querer. Porque o querer ser não sossega nunca. Enquanto o dever ser nunca é, porque o que deve ser é uma ilusão que não sai de dentro. O que sai de dentro é sempre o que é e que está mais próximo do que se quer ser. Doído.

Rasgar a regularidade e a constância do sol surgindo no horizonte é tão doído quanto rasgar a carne, todas as pequenas e singulares vezes. Eu rasgo porque Sofia me pede para não deixar pedra sobre pedra. É assim que ela quer e prefere que seja. Mas somos grandes amigos, pondero. Por isso mesmo, ela insiste na segurança que se não tiver, ao menos finge bem ter. Eu quero Sofia comigo, em mim e sobre mim porque eu sempre quis e precisei dela. Seja como existência vaga, seja como pessoa querida e próxima, seja como títere do caos, seja como sustentáculo da leveza, seja como artífice de discussões teimosas, infundadas e de intelectualidade dúbia, seja como mulher, mãe dos meus filhos, guardiã dos meus templos secretos, restauradora dos meus e dos dela momentos de indecisão e aflição. Porque mãos pequenas e delicadas fazem grandes estátuas de bronze para adornar o portal da existência.

A tragédia reside no não saber ser. No não saber estar. Como dizia Eric mais um, “ser é diferente de estar, é preciso saber existir”, porque os deuses não perdoam a reticência. Mesmo que gastar horas olhando para o teto ao som do vazio não seja uma atitude reticente, há outras que fazem a coisa se tornar imperdoável. O caixeiro-viajante chega destemido e desce na estação fria da madrugada. Sozinho em busca de uma pensão que o abrigue. A tragédia é não haver abrigo. A tragédia é não saber buscar abrigo. A tragédia é não haver quem abrigue. Porque todos somos seres que abrigam e somo abrigados. Quem não consegue abrigo quando precisa não é um ser, porque não sabe estar, nem ser, nem existir.

Sofia chega a minha casa por volta das 5 horas da manhã. Diz que dói estar assim. Que não está sabendo estar como se é. Que precisa providenciar as malas e partir. Ir para um lugar onde ela saiba ser e estar e existir. E que para ela, este lugar está em mim. Mas ela pede, desta vez sem mandar, sem gritar, sem brigar, sem lutar e me espancar, sem sua típica petulância de pequena criança mimada. A transformação parece incrível. Me ardem os olhos quando vejo a humildade sincera finalmente brilhar. Aquilo catalisa partículas na corrente sanguínea e explodo. Quero que ela entre em mim e fique, protegida, segura, me restaurando por dentro e fazendo a decoração com flores roxas, vermelhas, amarelas e lilases, estátuas de bronze que só suas mãos pequenas podem fazer. Que ela pinte a história do universo em minhas entranhas. Que ela arrefeça o calor do coração febril com seus sopros de leveza e suavidade. Que o ente idealizado não se perca entre os descaminhos do ente real. Que eles se unam e se entendam pra fazer um todo bonito e harmonioso. Que os beijos sejam ternos e causem arrepios. Porque se arrepiar é bom. Como é bom.

Ela fica, a confusão se instaura, os pássaros lamuriam, a música só consegue ser tocada numa nota só. Mas é assim, são dias de suspensão. Dias sem saber e sem querer saber o que fazer. O dever ser e dever fazer tenta se impor. Mas percebo a maturidade suficiente pra não deixar isso acontecer. Tenho finalmente alguma maturidade que, por menor que seja, já é suficiente pra não deixar o dever ser e o dever fazer se impor. Que seja como for. Trágico ou não. Sustentável ou não. Consciente de que existe um universo infinito e em desencanto entre essas opções extremas do ser ou não ser. Tragédia é viver sob maus auspícios.

E se tudo parecia configurado, a insensatez emerge como uma baleia ansiosa para respirar, grande, volumosa, cerimoniosa, ritualística e irrefreável. E ainda bate sua cauda para mover grande volume de água e inundar barcaças, homens e corações. O mar sempre cobra o preço de ser a fonte de tudo. Seja da desgraça ou da plenitude. Envia a insensatez para lamber os dias e causar desapego. Eu vivo e vejo. Isso me comove. Isso me define. Isso faz qualquer um ser o que é. E cometer os erros que comete.

Sofia era próxima de Jane. Jane sabia tudo de Sofia, que sabia tudo de mim, embora Jane só soubesse pouco de mim, mas bastante de Sofia e o suficiente pra atiçar o desejo. Saber é poder criar, mas também poder destruir. Jane veio me dar dicas para fazer o que quisesse que fosse feito. Mostrou-se amplamente solícita e amável. Gentil. Bonita sempre fora, mas fazia questão de se tornar mais para mim. E com apenas dois pequenos dedos moveu pedaços de terra e me fez cair em seus braços, desequilibrado pelo tremor. Isto porque o amor é coisa grande demais pra se ter e pra ser um só. O amor é por todos, para todos. E eu acho justo dividi-lo. Jane conhecia a força do amor gratuito, amplo e anarquista. Jane.

Depois de alguns dias enclausurados em si mesmos e na construção da tragédia, Jane sumiu. Foi embora cuidar das suas pendências e eu voltei à realidade. Sofia sofria lá dentro de mim. E eu tentava consolá-la. Não poderia fazer nada mais além do que já fazia. Pedir perdão seria mentira. Alegar arrependimento também. Eu só poderia dizer que as coisas são como são e que se aceita ou não. Sofia fremia. Lânguida. Débil. Precisava de mim como eu nunca precisara dela, embora eu tenha precisado muito. Ela encolhia e sumia em minhas mãos, e eu tentava mantê-la viva, como uma flor que murcha brusca e inexplicavelmente enquanto vivia o auge do florescimento. Amargura. Ela poderia ter engolido e ter se tornado amarga. Mas isso não cabia dentro dela. O doce da sua doçura anulava o amargo da amargura que eu poderia ter imputado a ela. Precisávamos de dias completos de nós mesmos. Pra restabelecer o eixo. Saber onde estar e como ser. Mas ela murchava. Eu corria pra socorrê-la, desesperado. Sem saber pra onde ir e o que fazer. Jane, que noutros tempos tinha se mostrado conhecedora dos segredos e chaves de Sofia, desapareceu. E desapareceu tanto que quando voltou veio pra dar a notícia do meu filho. Ele viria. Sem dúvida. E era o meu filho, o filho que eu não tinha com Sofia.