terça-feira, 18 de janeiro de 2011

A tragédia de Sofia - Parte III

Algumas sensações são tão efêmeras. Por que? Me pergunto sempre isso em tardes de domingo porque a sensação de um domingo ordinário à tarde dura mais do que deveria. Já as melhores sensações passam antes que se possa capturá-las. Boas sensações são pássaros raros que voam livremente. São indescritíveis. Irreconhecíveis à primeira vista. Impressionantes. O difícil é lidar com o desejo louco de caçá-los. Torna-se um vício insalubre e obsessivo. Até que se percebe o absurdo das situações em que nos metemos em busca desses colibris sensoriais, rouxinóis e flamingos cantantes, cintilantes e que voam, voam e mais voam do que fazem. Por que? Porque o universo nos testa a capacidade de senti-lo para si mesmo. Ele se sente por meio de nós e nós ao experimentarmos essas sensações incríveis queremos mais. E o querer mais se torna alucinante porque é diferente de tudo o que se pode imaginar. Algumas sensações são comuns, embora ainda assim indescritíveis. Mas e a dor de sentir demais. O universo muitas vezes não nos ensina a lidar. E não se satisfaz. Fica nos provando, nos metendo em veias gigantes que jorram sentimentos. Párem o mundo que às vezes eu quero parar de sentir. Quanto mais o sentimos, o universo, mais aprendemos, claro, mas também mais longe ficamos da realidade material. E como lidar com as pessoas que só vivem a realidade material uma vez que atingimos picos sensoriais do universo? Fomos feitos para sentir. Mas alguns insistem em ser insensíveis. Bem-aventurados os que sentem, comem, apalpam, choram, gritam e tudo ao mesmo tempo, vivendo o intenso dos dois mundos.

A sensação da paternidade é uma daquelas comuns, mas ainda assim indescritíveis. Quando se vê o filho nascer todo o organismo vibra com intensidade singular. Mas eu não posso dar nenhum detalhe porque até agora só sei que vou ser pai, mas ainda não sou. Jane vai dar a luz em setembro. Filho da festa de reveillon e das promessas de um novo tempo que não se cansa de chegar a cada dia. Sem hipocrisia. Primeiro coito do ano, naquela atitude louca de que no primeiro dia do ano temos que ser capazes de fazer tudo o que não fizemos ao longo de todo o ano que acaba de acabar. Inclusive fazer um filho, como se todos os anos passados nós tivéssemos que ter feito um filho e não fizemos. Tudo tem mudado tanto em mim e nas pessoas.

A vida dela passava por altos e baixos. Um dia conhecia pessoas. Outro dia se sentia solitária. Com gosto amargo na boca. Passeava sempre em dias chuvosos em busca da paz. Eu disse a ela que se contentasse com paz, alguma paz, pois 'a' paz não se encontra porque não existe. Expliquei que tudo na vida é uma questão de expectativa, quanto menos se espera mais feliz se fica com o que se tem ou se consegue. De novo, tudo é uma questão de expectativa. Com seu guarda-chuva xadrez desbotado ela seguia buscando a paz em dias chuvosos. Eu como amigo da amiga e semi-amigo costumava dizer que ela era muito exigente com os homens. Pra quê, Jane? Precisava se expor mais a eles. Mas ela dizia que sempre que se expunha, sofria. Ela não compreendia que sofrer é importante e que é tão comum quanto respirar. Uma vez que se entende isso, perde-se o medo. Não que não ter medo nenhum seja de todo positivo. Não é. Não ter medo faz a pessoa não ter limite. E não ter limite leva a pessoa a se estrepar, embora eu ache estrepar-se e não ter limites coisas lindas e louváveis da vida. São poucos os que logram ser assim. Mas como tudo na vida, o bom é o equilíbrio e eu devo admoestar isso porque sou prudente comigo mesmo, com o mundo e com os sem limites que se estrepam. Imagine o mundo que seria se todo mundo rompesse o limite e se estrepasse. Seria sensacional, mas os verdadeiros e originais estrepadores fodedores de limites perderiam o espaço e o brilhantismo. Estrepar-se seria comum e aí o brilhantismo se desviaria pros imbecis que nunca se estrepam. O mundo ficaria virado, chato. Que coisa, Jane! E ela, Jane, era daquelas pessoas desequilibradas. Medo demais. Cautela demais. Dois sofrimentos e desilusões amorosas fizeram-na uma garota fria, arrogante, cínica e dissimulada. Daquelas que transam com qualquer um numa noite só pra se sentir gostosa. Mas na verdade finge a gozada e se apavora com a possibilidade de rever o parceiro. Isto é anti-amor. Isso é uma verdadeira tragédia.

Sofia era ao todo diferente. Uma pessoa de doçura incrível. Pronta pra vida e pra servir de instrumento sensorial ao universo. Aberta ao mundo, às pessoas e às sensações todas. Não era preciso romper barreiras para penetrá-la. E isso fez com que me identificasse, me apaixonasse e a admirasse. Sensação tremenda, devo confessar, é esta de conhecer uma pessoa como Sofia, entendê-la e saber que ela me entende. Nada como uma grande sensação de compreensão recíproca, embora muitas vezes discordante, descaracterizante, desconstrutiva e anulante. É, às vezes a gente se dava mal. Mas insisto, tudo isso representava aquela compreesão indescritível, mais uma vez, intraduzível e indiscutível. Não era necessário partir, brigar, discutir nem decidir. Bastava pensar para que o outro soubesse. Pra quê atos, palavras, articulações e insinuações quando se pode só sentir, pensar e ser compreendido?

Por isso que digo que Sofia era capaz de compreender o que acontecera com Jane. Eu só não sabia como fazer dali em diante. De um lado tinha a vida da vida. Do outro, a tragédia em pessoa carregando na barriga meu filho. Uma situação embaraçosa. Se pudesse fazer de conta que Jane não existisse ou nunca tivesse existido seria melhor. E mais, seria plenamente possível, se não estivesse com o meu filho. Mais trágico ainda pra ele. Ter uma mãe como Jane. Que sacanagem eu fiz com o jovem! Pra quê? Só pra começar o ano gozando.

O fato era que eu queria ficar com Sofia, casar-me com ela. Ficar pra sempre. Amar o amor com ela. Mas queria meu filho comigo. Conosco. Queria que o filho fosse meu e dela. Mas não era. Foi aí que tive uma brilhante ideia. Já que Sofia era elevada o suficiente e compreendia tudo. Estava tranquila com a situação. Sabia que tinhamos transado no primeiro dia do ano. Que eu era uma pessoa boa e escrupulosa. Que Jane era também. Pelo menos pra ela, Sofia, Jane era uma pessoa elevada. E de fato era. Eu só falei mal dela porque estava zangado. Zangado por ela ter aparecido na minha frente naquele dia e por termos feito um filho. Mas na verdade eu sabia que Jane era uma pessoa do bem, e a achava melhor quando lembrava do meu filho. Céus, ela tinha sido capaz de gerar um filho meu! Eu tinha que respeitá-la. Não só isso, tinha que admirá-la. E de fato o fiz e parei de achar ruim ela ter aparecido na minha frente naquele dia e ter feito um filho comigo. Claro, parei de achar ruim porque do jeito que a situação estava configurada, se não fosse ela, seria alguma outra, e poderíamos ter feito um filho do mesmo jeito, com a diferença que se fosse alguma outra a brilhante ideia que eu acabara de ter não se aplicaria. Eu tive a ideia de casar com as duas. Sim, porque deste modo eu ficava com Sofia, quem eu amava e por quem era amado, e com Jane, quem tinha o meu filho. Pra ele seria perfeito, teria um pai feliz e duas mães. Pra Sofia seria bom também porque Jane era sua melhor amiga e eu tinha certeza que ela amaria o meu filho com Jane. Pra Jane seria perfeito, ela teria a melhor amiga, o filho e um pai para seu filho. Minha ideia era perfeita. Depois eu faria mais vários filhos com Sofia e todos viveríamos felizes. 

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