domingo, 20 de fevereiro de 2011

Madrugada na rua.

Saí descalço pela rua. Madrugada quente, úmida, abafada. Mas eu não sentia entre os dedos dos pés as pedrinhas que insistiam em me machucar. Idealizando vidas, mulheres, momentos, eternas situações de gosto para combater o desgosto que era estar. Nunca se é se não se sabe estar. Mas estar onde? Como já disse e já ouvi um dia, é preciso saber estar. Nunca sei. Nunca soube. Sempre quis saber. Por isso idealizo. Sonho que sei. É difícil caminhar pela cidade vazia, quente, úmida, numa madrugada sem sentido. Em busca de sentido todos nós nos perdemos um dia, ou todos os dias. Não é possível se encontrar sem se perder. Os caminhos são tortos para que saibamos que fizemos escolhas erradas. Se todos os caminhos fossem retos, sempre acharíamos que tínhamos feito a escolha certa. E o certo, meu amigo, eu mesmo, não existe. É difícil chegar às seis da manhã, hora tarde, ou cedo, não é? E descobrir que sempre se viveu na ilusão da busca por ideais. Os ideais não existem. A mulher ideal não vai aparecer na porta pedindo socorro pra não suicidar. A vida ideal é a que não temos. Quem quer ter? Acho que ninguém. A vida ideal custa muito caro. Não se pode ser assim.

Viajar só pra ir. Não importando aonde. É o que desejo. É o que sinto. Forte como o gosto de vinagre vencido, puro engano. Vinagre não é mais vinagre se está vencido, engodo trágico dos deuses. Os caminhos perdidos levam invariavelmente à tragédia, por isso preciso recobrar a consciência e sair do mundo fantástico. O mundo ideal, onde eu sou possível com todas as desvirtudes que me compõem. Não sou possível. Preciso entender isso de uma vez por todas. Ou eu me torno possível ou vou ser morto, fuzilado, afogado neste mundo real impossível pra alguém com as desvirtudes que tenho. Mas aí entra novamente a força do ideal: a transformação. O próximo ideal é transformar-me. Novamente é ideal. Nem no mundo real nem no ideal posso ser e estar. Onde então? Onde eu sou possível? Na floresta? No alto da montanha? Numa casa podre na beira do lago? Numa casa de papelão debaixo do viaduto? Não sei se sou possível, tampouco onde seria. Vencido. Expirado. O alimento deve ser retirado da prateleira e descartado para incineração sob perigo de propagar bactérias ultra-resistentes. 

Ir e não voltar é um exercício que deve ser praticado com mais frequência. Mudanças produzem efeitos que não se sabe. Melhor viver com o que não se sabe do que com o que se sabe que é uma merda. Viver de improviso. Voando na bolha de sabão que pode estourar. Mas pode subir se alguém assoprar. Ele não tem mais reserva de ego para ser rejeitado. Ele disse isso. Será que também vive numa bolha do mundo ideal? Não poder ser rejeitado e não ter reservas à rejeição é ser possível? A possibilidade é o que me espanta mais. Quando se quer muito, não se pode. É a dura verdade. Está mais uma vez perdido quem rejeita  se antecipando à rejeição.

Uma noite quente, úmida e abafada possui vários personagens. A barata que caminha por acaso na calçada. Um rato que passa pela sarjeta. Os mendigos cobertos de papelão embaixo da marquise das lojas, escorados na porta de ferro rolante. Os taxistas que passam e oferecem um passeio. Não, não quero, estou bem à pé. O bêbado que anda trombando nas placas, postes e lixeiras. O fodido de fome que revira lixo, junto com cães. Quem é mais fodido? O cão ou o fodido? Quem é mais possível? Acho que se respondesse a uma das perguntas saberia todas as respostas. Há também pessoas impossíveis que só andam na madrugada como eu. Vão pro trabalho, voltam dele, andam à toa, vão para festas, voltam delas, vão para a casa dos amantes, voltam de lá. A rua é bonita. E só se pode entendê-la na madrugada. Durante o dia não. O sol faz as pessoas pensarem que têm que fazer alguma coisa. A lua não. A luz da lua ou a luz da noite diz pras pessoas ficarem à vontade. E durante o sol, mesmo quem não tem nada pra fazer, alucina e faz alguma coisa. À noite as pessoas fazem o que querem. Drogam-se, bebem, fazem amor, passeiam pela rua sem sentido, dançam, ouvem música, assistem a filmes emocionantes, criam fantasias, idealizam suas vidas.

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