quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

O Cheiro do Verão

Paul Gauguin nutria uma paixão irrefreável por jovens mulheres. O desejo ardente por seus corpos, suas mentes e comportamentos era muito mais do que curiosidade. Era o motor de sua inspiração. Como disse certa vez ao pároco de Papeete ao censurar a suruba infinita que praticava em sua casa com selvagenzinhas: “se eu não fizer amor, não consigo pintar”. Vontade de sentir a presença jovem e irreverente. Ele tinha sido sério na juventude. Um homem recatado e pertencente à sociedade burguesa. Zelador dos bons modos e pai de família. Depois de certa idade convertera-se num artista consciente de suas limitações estéticas e experimentais e ansioso por ultrapassá-las com todas as forças.

Algo levemente parecido acontecia com Júlio. Um rapaz, não tão velho como Paul Gauguin aos 47 anos depois de voltar de uma viagem de auto-exploração e libertação pelo Taiti. Júlio havia sido um bom moço durante muito tempo. Recatado, conservador, respeitoso das moças e das verdades socialmente construídas e que serviam pra orientar a vida dos tolos e ignorantes sobre os próprios instintos e sensações. Júlio sentia-se finalmente livre para extrapolar os pontos de pausa e inflexão. Quem quer inflexionar perde tempo e não entende que grande parte da vida deve ser vivida sem essa pretensão dispendiosa. Não é tão radical quanto parece, tampouco como fiz parecer ao lembrar a história de Gauguin. Júlio só era um rapaz normal que finalmente, e que bom, tinha descoberto a irreverência e a leveza da vida instintiva e sensorial. Melhor pra ele que descobriu mais cedo do que muitos! O desapego custa caro e pra quem não nasce com ele é preciso fabricá-lo com as vísceras.

Aos 29 anos Júlio conheceu Amanda, de 16. Sua pele branca, limpa e macia o fazia lembrar do algodão e das nuvens. Seus olhos negros, grandes, ovulados e pentrantes o remetiam ao céu estrelado de uma noite de verão. Aquelas noites quentes de mormaço com um cheiro específico que incendeia o ar, que não deixa dormir. Os poros suam e sentimos o incenso que exala dos nossos corpos, atraindo-nos uns aos outros quase que obsessivamente, quase que como zumbis sedentos por carne. A essência das noites de verão, uma essência que paira no ar e queima lentamente exalando a fragrância da permissividade, da totalidade dos sentidos. O verão e Amanda eram muito semelhantes. Alvos, puros, suaves, com muita luz e brilho, e aquela atmosfera de calor envolvente, preguiçosa, em que todas as partes do seu corpo se tornam pontos potenciais de prazer. A exacerbação dos sentidos. Amanda era assim. Perfume do sol na terra com a delicadeza de mãos finas e moles. Cabelo liso e ruivo, longo. Contraste perfeito entre brancura da pele, vermelho do pelo, azul do céu e do mar, e o sol do verão nos trópicos.

Amanda era amiga da irmã de Júlio e tinha ido passar alguns dias do verão na casa de praia da família. Julio tivera dificuldades para comparecer ao encontro familiar devido a questões profissionais, mas na última hora foi capaz de administrar os compromissos e pôde descer a serra. Júlio já conhecia Amanda, amiga de longa data de sua irmã mais nova, Clara. Mas o primeiro olhar entre os dois no calor do litoral foi marcante. Amanda o penetrara. Fizera-o sentir-se invadido com os olhos flamejantes. Lindos, doces, meigos, mas perfurantes como pode ser uma viúva negra que seduz seu macho e o penetra com os tentáculos após a cópula. Não que Amanda tivesse esse aspecto lúgubre, mas os olhos eram muito belos e firmes ao mesmo tempo de modo a serem capazes de envolver e matar.

Amanda sempre o admirara, mas Júlio a tratara sempre como criança, amiguinha da irmã. Só que desta vez, os seios protuberantes e o fito que não desvia não permitiam mais a mesma atitude. Amanda subitamente se tornara mulher e Júlio ao vê-la assim, tão mudada e em tão pouco tempo, ficou desconcertado. O olhar sem timidez ou inocência o enlouqueceu. Júlio tinha especial admiração por mulheres ousadas e corajosas. Mulheres de inteligência superior eram aquelas que sabiam respeitar e dar vazão aos seus instintos. Isso em geral chamava muito a atenção de Júlio. A atitude invasiva, a pele delicada, a idade tenra ou recém possuída por sentidos e sentimentos graves, a condição de ninfeta amiga da irmã e da família, o sol, o cheiro do verão, o mar, tudo convergiu para que Júlio enlouquecesse e soubesse que este verão seria um dos mais marcantes.

Depois do encontro e de se acomodar, Júlio e as pessoas da casa foram dar um mergulho no mar. Já era quase noite, aquele momento em que o sol só é suficiente para iluminar e colorir as partes remotas do horizonte. Seu calor não aquece mais. A água morna fica azul escuro porque a luz não consegue mais atingir o fundo. Em trajes de banho Júlio pôde confirmar a transformação de Amanda. Uma coisa linda. E Amanda não mudava sua atitude. Sempre que Júlio a dirigia a palavra, Amanda o mirava no fundo dos olhos e não se desviava. Ela tinha a capacidade elástica de virar a cabeça para responder aos chamados de qualquer um sem tirar os olhos do fundo dos olhos de Júlio, que no começo se surpreendeu, depois encarou pensando que a moça logo sentiria pudores e desviaria o olhar, mas por fim estava novamente surpreso pela força e determinação do olhar de Amanda a ponto de ficar desorientado.

Após o jantar sentaram-se na varanda para observar o céu e conversar. Ele, sua irmã Clara e Amanda. As duas tinham se tornado mulheres. Falavam dos garotos com desenvoltura e conhecimento. Não se importavam com a presença de Júlio porque o julgavam velho demais para interferir e velho o suficiente para não se assustar com os assuntos moderadamente quentes. Clara tinha no irmão mais velho sua referência de liberdade e bom senso. Era sempre com ele que discutia e se aconselhava sobre questões amorosas, sexuais, filosóficas, cósmicas e profissionais. Para ela, o irmão tinha sempre as melhores avaliações, a opinião mais próxima da neutralidade e dizia frases que faziam muito mais do que resolver seus problemas, a faziam pensar profundamente, respirar e se motivar. Tudo o que Júlio dizia a irmã era algo como libertário, otimista e responsável. Clara sempre tivera consciência de que o melhor caminho era ser uma pessoa consciente e respeitosa dos limites seus, dos outros e do universo, exatamente na medida necessária para buscar superá-los, rompê-los, dilacerá-los, mastigar os limites e fazer deles um bagaço como se faz com o bagaço da cana. Isso graças ao pai e ao irmão, homens iluminados e com sensibilidade capaz de suprir o vácuo deixado pela ausência da mãe.

Amanda, por outro lado, havia se tornado uma garota muito inteligente. Adquirira excelentes referências culturais. Pôde conversar abertamente e em nível equilibrado com Júlio sobre os mais variados temas com base em importantes obras literárias, musicais, plásticas e cinematográficas. Amanda também demonstrara bom conhecimento em assuntos políticos. Basicamente, Amanda era uma mulher inteligente e excelente companhia para conversas de mesa, de bar, de praia, de jardim. Complemento e modelo perfeito para a irmã se inspirar.

Por volta de quatro horas da manhã, quando o assunto já se extendera em demasia e não havia mais o que ser dito, Clara quis se recolher.

  • Mas já, Clarinha?
  • Ah, já tô com sono.
  • E você Amanda? Se quiser pode ficar mais. Não precisa ter medo que não vou te morder escondido dela.
  • Não seja bobo, até parece que tenho medo de ficar sozinha com você.
  • Então tá gente, vou pra cama, boa noite.
  • Boa noite.
  • Boa noite.

Júlio e Amanda ficaram enfim sozinhos. Durante cinco minutos não disseram nada. Amanda ficou finalmente nervosa, podia-se notar pelo movimento de vai e vem frenético dos dedos dos pés e as mãos que não encontravam lugar confortável para repousar. De repente, Amanda pousou sobre Júlio os seus grandes olhos negros e respirou fundo num gesto sincero para despistar a tensão absurda que experimentava. Júlio começou a rir, puxou-a pelo braço e a beijou. Ele precisava dessa vitória. Precisava entregar a sua vaidade o troféu de vê-la desconcertada. Não era possível uma garotinha de 16 anos deixá-lo em transe e se manter para sempre no pedestal com os olhos vigorosos e imutavelmente firmes.

Foi o beijo mais doce que experimentara desde muito tempo. Amanda tinha lábios finos. Gosto de amora fresca na boca. Sua pele era tão frágil que qualquer movimento razoavelmente forte podia machucá-la. A barba de Júlio de um dia por fazer fustigava o rosto de Amanda, que nunca beijara um homem com barba, e isso fazia do beijo uma fricção de lábios, bocas, bochechas e línguas delicada e empolgante. Que diversão, Júlio, era passar e passear sua boca e rosto pela boca e rosto de Amanda! Ela estava curiosa. Percorria o corpo do homem com a mesma paixão e sentido explorador com que fazia com a boca na boca de Júlio. O beijo era suave, mas rapidamente Amanda ganhou confiança e começou a tatear com as mãos pequeninas de unhas mal-feitas o corpo do homem que sempre sonhara ser seu. Na intimidade, lembrou do amor que nutrira por toda sua infância por aquele moço mais velho e bonito que dava muita atenção a irmã e a ela quando iam brincar. Júlio as levava para passear no shopping, para tomar sorvete, para tomar banho de piscina. Júlio era para Clara o irmão perfeito e para Amanda, mesmo desde criança, o homem perfeito.

Após alguns beijos desses que duram períodos de finitude incomensurável, Júlio se sentiu mal, disse para Amanda que era hora de dormir e se retirou. Era como se ele estivesse violando algum dogma sagrado. Algum limite entre o possível e o impossível. Seu corpo respondera aos estímulos fornecidos por Amanda, mas a mente não queria permitir. Mente ainda atrasada, Júlio! Presa ao passado retórico de um jovem travado. Júlia ainda não estava totalmente livre daquele monstro que amarrava e açoitava seus instintos e emoções mais genuínos. Não se permitia. Amanda tinha acabado de completar dezesseis anos. Provavelmente ainda era virgem. Ele, com seus 29 anos, já fora casado, tivera em sua vida mulheres de todos os tipos. Conhecia bem a alma feminina, inclusive as jovens puras, doces e invioladas, mas quando as tivera também era um jovem. Agora, com a experiência que acumulara se sentia um lesador. Era como jogar sujo num carteado. Sabia as cartas de todos na mesa e conhecia o resultado da rodada. Não tinha o que fazer a não ser aproveitar da situação e extrair o frescor e a pureza de Amanda. Mas sabia que isso geraria resultados indesejados. Amanda já o amava com todas as forças. E o amaria mais ainda após ser por ele deflorada. Júlio era um dilema.

Para ele era como voltar ao passado. Rejuvenescer. Lembrou-se dos tenros dezesseis anos. Cheio de sonhos. Com romances e amores infinitos. Como fora linda sua adolescência com as garotinhas frescas. Neste momento não se sentia mal porque estava em pé de igualdade. Eram todos jovens, belos, doces, desenvolvendo-se. Agora ele se sentia um intruso. Amanda deveria experimentar aquilo com um rapaz da sua idade. Ou não, ou talvez fosse uma garota abençoada que poderia ter o privilégio de descobrir o sabor do verão com um homem mais maduro e consciente. Mas o dever ser não é ser de fato. Sentimentos contraditórios gritavam na cabeça. Amanda não gostava dos moleques. A irmã certa vez comentara que ela nunca observava os amiguinhos do colégio, mas seus pais e tios ao levá-los e buscá-los das aulas e festinhas. Júlio dormiu toda a manhã. Levantou-se para almoçar e não teve coragem para mirar nos olhos de Amanda.

Foi deitar-se novamente após a refeição e em seguida Amanda entrou no seu quarto, olhando-o profundamente nos olhos, no melhor estilo menina ousada que ela desde então sabia fazer tão bem.

  • Onde está Clara?
  • Fica tranquilo, ela tá dormindo no nosso quarto.
  • Amanda, o que você quer? A hora que eu for ao mar chamo vocês.
  • Não quero ir ao mar. Quero mais do mesmo de ontem.
  • Amanda, é melhor não. Não tem nada a ver. Eu sou muito velho pra você. Você precisa encontrar alguém que também esteja se descobrindo como você. Tem que ser recíproco.
  • Eu não tenho paciência para esses moleques. Eu quero um homem como você.
  • Mas Amanda, não tem nada a ver.
  • Tem sim. Eu sei que tem e sei que você também me quer. Quero que você seja meu primeiro homem de verdade.

Neste momento Júlio teve calafrios e imaginou como seria. Lindo. Uma ode à vida. Um retorno ao frescor da mocidade que não volta nunca mais. Um glorioso momento de anulação do tempo. A repetição do irrepetível. Uma reexperimentação do que já passou e se tornou arquivo velho da memória. Júlio a abraçou e a beijou longamente. Disse que não poderia fazer isso. Que seria injusto e desleal com ela. Amanda trancou a porta e tirou o vestido. Ficou nua em pelo. Júlio delirou ao ver aquele corpo perfeito, liso, magro, cintura fina, nenhuma marca, os seios do tamanho uma maçã, com a pele preservada do sol, mais macia e mais suave do que qualquer outra parte de pele do corpo. Era branca e brilhava, tinha algumas pintas que se espalhavam aleatoriamente fazendo a decoração daquele cômodo de doçura. Pareciam pinicadas de pincel feitas por alguém que ria e se divertia demais com aquilo. Uma brincadeira de pincelar no corpo feito de tela. Se Júlio fosse pintor ele faria ali sua obra-prima.

Ela veio lentamente. Deitou-se sobre ele, envolveu-o com os braços e começou a beijá-lo. Júlio estava inerte. Sua mente o censurava violentamente, pedia para que reagisse e impedisse o inevitável. O corpo, mais consciente da força irresistível do cosmos, não permitia reação. Gozava e se deliciava com o momento de esplendor máximo. Logo estava despido. Despediu-se do desperdício de energia que era ir contra o que não se pode lutar. Beijou todo o corpo de Amanda como quem faz um ritual sagrado de homenagem a todos os deuses do universo. Foi equilibrado e justo com todos os pedacinhos dela. Nenhuma parte ficou desassistida. Amanda fervia e se contorcia. Sua pele branca foi se tornando vermelha à medida que os beijos impudicos avançavam.

Quando se deu conta de que Júlio finalmente aceitara sua missão inevitável e passara a amá-la sem os entraves da razão, Amanda teve certeza de que aquele era o homem que sempre quisera ter e se sentiu pela primeira vez mulher. Quando o fio da meada é encontrado nada pode parar quem o detem. E assim que se sentiram Júlio e Amanda. Ele viu novamente a juventude. Lembrou dos banhos frescos de cachoeira da infância e adolescência. Dos mergulhos de mar nas noites quentes de verão. Das ameixas roxinhas, doces e frescas que costuma comer pela manhã. Que delícia essas frutinhas frescas com caldo dentro. Que soltam o licor ao serem mordidas. Ameixa, amora, cereja. Banho de chuva na grama da casa. Primeiro beijo com gosto de balinha de hortelã. Ela viu os futuros filhos. Sentiu-se capaz de fazer o que quisesse do mundo e no mundo e de amamentar. Sentiu o conforto e a segurança que o cheiro de homem de verdade lhe inspiravam. Sentiu-se forte como uma rocha ao ser penetrada por aquele homem grande, forte, de pele morena, cabelos lisos e negros e olhos profundos como os seus. O êxtase foi tão pleno que não sentiu dor. Sentia-se totalmente à vontade, relaxada, confiante, segura, acolhida, amada. O gozo não foi contável porque foi permanente. A cada movimento, a cada beijo, a cada carícia, gozava. E ele também.

Dormiram tão profundamente que não ouviram Clara os procurando pela casa. Por fim foi ao quarto do irmão, tentou entrar, mas estava trancada, achou estranho porque ele nunca a trancava. Bateu várias vezes, mas não teve resposta. O pai e a esposa já haviam ido ao mar e os esperavam. Então resolveu dar a volta pelo jardim e entrar pela janela. Gritou ao ver os dois dormindo. Não reagiram. Clara não compreendeu o que acontecia. Tentou acordá-los, mas não se mexiam. Estavam com sorrisos de plenitude. Foram empalhados no momento de êxtase máximo. Transcenderam as esferas da carne e da razão. Clara não conseguiu mais animá-los. Superaram para sempre a verdade do finito e foram viver na luz, juntos, gozando. A posição e o sorriso de satisfação eram tão impressionantes que foram enterrados juntos, entrelaçados, fundidos. E no epitáfio do casal se inscreveu: “Que descansem em gozo e sejam abençoados pelos deuses tutelares das intempestividades aqueles que descobriram o gozo eterno!”.

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