A mulher mais impressionante da história. Coisas que homens comuns não conseguem entender. Elas possuem a beleza ímpar de seres iluminados, daqueles que nunca passam despercebidos pela história. Os dias a sua volta são sempre envolvidos por uma luminosidade singular, um sépia distorcido e que se colore no ponto exato da beleza que só existe no mundo encantado. Como um quadro ou uma fotografia retocada de Jan Saudek. A vida perto desses seres parece um filme rodado no campo em cenas de longas projeções em que a beleza fotográfica satisfaz qualquer necessidade de enredo. O enredo é a vida em si, suas várias cores, ou as várias cores que somente seres iluminados ou os seres abençoados por viver próximos aos iluminados conseguem ver. Eu não sei se vejo isso todos os dias, mas quando estou com Sofia ou com Jane posso.
Em dados momentos o turbilhão de pensamentos insensíveis embaça a visão. O discernimento se torna falho. E é nesses momentos, de visão turva ou de iluminação solar intensa, como sofreu Mersault de Camus ao matar o árabe, que indivíduos abençoados renegam a sorte que lhes foi concedida e caem em tragédia. É preciso muita força para sucumbir e quebrar o ciclo de predileção dos deuses tutelares das intempestividades. Mas uma vez isto feito, é difícil retroceder. O sujeito antes abençoado se distancia brutalmente dos seres iluminados e da vida feliz da luminosidade multicolorida. As cores não mais se diferenciam com tanta nitidez. A evidência falha. Tudo é e não é mais ao mesmo tempo numa sucessão invencível à pequenez da razão humana.
E foi assim que me vi ao saber da gravidez de Jane. Soluçante, temeroso de que meus dias plenos tivessem acabado. O absoluto poderia até não terminar, mas seria outro, outra forma, outras cores nos dias, outros seres iluminados a me inebriar. O ciclo se rompera definitivamente. O gosto de gostar dos outros e de viver de sua luz era uma plenitude encerrada. Tinha que descobrir novas maneiras de tocar o barco.
- O que você acha disso?
- Eu tenho mesmo que achar algo? Não posso só passar o tempo e esperar ver.
- Pode. Mas assim é fácil.
- E eu quero que seja fácil.
- Sofia já sabe?
- Deve saber. Não falei, mas ela sabe. Ela é uma ponta sensorial do universo.
- O braço que serve pro universo sentir toda a beleza que ele é?
- Aham.
- Mas um dia teremos que verbalizar isso e tomar ações práticas.
- Ou não.
- Não?
- Não. Podemos só deixar as coisas acontecer. Sofia vai saber fazer o melhor a ser feito, como ela sempre sabe.
- Eu sinto ciúmes quando você fala assim dela.
- Será que sente? Não seria vontade de ser ela?
- Talvez. Tudo se confunde. Antes de ficar com você era tudo muito simples.
- Por isso que ficamos, pra destruir nossa paz, fabricar tragédias.
- Mas esta tragédia é viva, traz vida.
- Porque somos seres iluminados. Ou pelo menos o são você e Sofia. O terceiro elemento,o aglutinador, que sou eu, é quem desalinha a iluminação.
- Você é o causador da tragédia.
- Ninguém pode ser culpado, apontado, julgado e condenado por amar. O amor nunca causa tragédia. Causa vida. Vida, vida e mais vida.
- Mas pode também trazer muita dor, sofrimento e morte.
- Aí não é amor. É qualquer outra coisa.
- Qualquer outra coisa que não se sabe?
- Que não se sabe. Preciso de água por favor.
Não corri pra avisar Sofia. Eu sabia que ela sabia. Que sempre soubera. O meu filho não poderia ser dela, embora nos amássemos como o vento ama as árvores ao contemplá-las com beijos e brisas suaves no entardecer. O amor tem dessas coisas. Muitas vezes ele anula. Ou muitas vezes ele é tão grande que transborda e pessoas em volta acabam recebendo-o. Como Jane recebera o transbordamento do amor meu e da Sofia. Muito amor não cabe em duas pessoas.
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