domingo, 6 de dezembro de 2020

Ensaio do amor.

Começa clichê, termina clichê. O amor desvairado perturba. Confunde. O amor sereno aplaca, amansa. O amor desvairado é treino. O amor sereno é final da copa do mundo. Não que se tenha toda a expectativa do mundo, pois estar numa final da copa do mundo já é ganhar. Já está ganho, já se está, já se é. Amor sereno é o triunfo de quem viveu até lá. De quem sobreviveu às vicissitudes todas, à ansiedade, à loucura, à demência, ao desespero, às múltiplas e incontáveis possibilidades de morte besta pelas quais todos passamos. É viver pra contar quantos mares tormentosos se cruzou no barco a vela. É mostrar todas as montanhas onde já pisou e voltou. É lembrar de todas as quedas de bicicleta, bestas e feias, os ralados, braços e costelas quebrados. O cóccix trincado na queda do skate. O pulo do paredão, a canela inchada das pancadas no corrimão do caixote. Os mergulhos experimentais nas milhões de cachoeiras, mares e amores impossíveis, nos cogumelos coloridos. A vida inteira que passou num feixe ofuscante de luz. Explode a retina. E aí se é, se está, na final da copa do mundo. Vivo. Não se sabe como nem por que. Nada mais importa. O jogo nem jogo é. É um triunfo. É puro júbilo. Gozo infinito. Estabilização do monitor cardíaco nem na alta, nem na baixa, no meio. No centro. O coração vivo bate gostoso. O desfibrilador já não é necessário. O paciente vive e tem alguma coisa de anormal nessa vida dele, pois vive demais. Vive bem demais. Não pode. Sim, pode. Não se entende. Não importa. Não é preciso entender, basta sentir e viver. O sujeito agora é e está, finalmente. Que loucura tentar entender. Pra quê, Sebastião, pra quê?! Conseguir ser e estar é a glória do amor sereno. Presente dos deuses tutelares das intempestividades que tiram todo o amargor da saliva. Mas não é que o amargor sai. O sujeito é que aprende a apreciar todos os sabores em todas as suas delicadas nuances e notas. O amargo ainda está lá pra quem não ama. É como apreciar o café sem açúcar. A cachaça pura envelhecida em toneis de jatobá. Gosto duro, firme, incontestável, por vezes agressivo quando é necessário. Agressivo pra quem não ama, pra quem não conhece a beleza e a harmonia do universo profundo de uma mulher de verdade. Aquela cachaça. Aquela mulher. O amor sereno é lamber o céu inteiro e sentir as estrelas explodirem na boca. O amor é elegância, composição fina feita à mão. O amor sereno é dar, dar e dar. É unilateral, intencional, consciente, desejoso de dar. É o desejo mais profundo e genuíno de fazer o outro brilhar e voar. É a liberdade real e transgressora. É a liberdade mansa. O amor sereno não quer nada de volta, não quer nada, não, só quer sentir a luz. É contradição porque confunde o ego, o orgulho e a vaidade. Mas, em verdade lhes digo, não há nenhuma contradição. O amor sereno é dar e fazer de graça. O sujeito altruísta. O sujeito generoso. Não importa. Nada importa. O amor é revolução com ternura, guerra de flor, batalha de pétalas, pulos no algodão. Canhões e artilharia de doçura. Doce, como é doce essa boca. Depois de tanto virar, virar, virar e ficar à deriva, agora segue o barco, capitão!

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