domingo, 23 de outubro de 2011

Eu queria estudar a sociologia do conhecimento

Quanto mais envelheço, mais tenho medo de falar. Parece que as ideias se tornaram todas horríveis. Coisas feias como papel picado de jeito torto. Mas não é. Porque os pensamentos de antes eram muito mais frívolos e saíam, mesmo assim. Uma camisa de força veste a escrita e o pensamento. Não deveria. O pensamento nunca deveria ser envolvido, muito menos por camisas de força. Mas o é. E da maneira mais insensata possível. Com rigor. Com clamor pelo não dizer. Não dizer não serve, principalmente quando se tem muito a dizer. Tenho muito a dizer, mas já nem sei mais o quê.

Não é todo dia que passeio de mãos dadas. Não estou acostumado. Ela sente falta disso. Sofre, mas não diz. Jamais dirá. A não ser que um dia ela se sinta confiante e segura o suficiente para dizer. Isso porque, no começo, pareceu que eu estabelecia uma regra: a de não reclamar de comportamentos pessoais inexplicáveis. Como não gostar de andar de mãos dadas. Mas eu gosto de andar de mãos dadas! Gosto de demonstrações públicas de afeto! Ela que não gostava e, por algum motivo absolutamente desnecessário, eu me fiz parecer que também não gostava. Verdade seja dita e encarada: ela quis parecer não gostar, por algum motivo desnecessário. Eu anuí, por outro motivo desnecessário. E assim nossas vidas se locupletam uma da outra, cheias de acúmulo de desnecessidades.

Fazer o que se quer. Dizer o que se pensa. Tocar onde se vê. Tudo parece tão fácil e tangível, que surpreende. Quem vive a vida real sabe que não é por aí. Deveria ser, mas não é. Ou talvez seja, e não seja apenas para as pessoas imbuídas de algum senso. Senso de sentido de que deve fazer alguma coisa. Quem pensa que não deve fazer nada deve sentir tudo assim, tangível. Quem acha que deve fazer alguma coisa não vê nada tangível, mas tangencia, ao menos. Isso conforta. “Estou bêbada no Leblon, chega aí”. Essa é uma frase dispensável, desnecessária. Mas ela adquire sentido para muitos contextos. Não este. Não aquele. Quero estar em outro lugar, perto do Leblon, mas não lá porque acho feio. Acredito no sentido dessas coisas abundantes que jorram por aí, com cores e lanternas, faróis, crucifixos, meninas, rãs. O passeio é longo, o turbante é branco. A coisa degringolou.

Quero falar mais sobre andar de mãos dadas. Eu gosto. Ela gosta. Por que não andamos, então? Desnecessidade. Ou necessidade de andar. Ou desnecessidade de demonstrar afeto publicamente. Vai que algum dia surge certa heterofobia. Impressionante, a palavra ainda nem existe no dicionário. O que importa é o que acontece no oco do osso. A coisa entra e dói de verdade, entre eu e ela. É tão bonito. Ela fala coisas que eu gosto de ouvir e que ficam passando várias vezes na cabeça ao longo de outros vários dias. São aqueles tempos de frouxidão, mas não só isso, as coisas passam naqueles momentos de apreensão. Como se eu passasse o tempo todo pensando que poderia morrer a qualquer momento, que não deixaria de fazer nada porque não tinha nada a perder, nem a vida, e aí me passa uma frase dela na cama e repenso tudo. Tenho sim algo a perder, as frases, as novas frases que virão na próxima deitada de cama em algum próximo dia de frouxidão, com ela. Dia de frouxidão sozinho serve pra lembrar das frases de cama dela. Dia de frouxidão com ela serve pra ouvir novas frases de cama dela pros próximos dias, pra ter algo a perder nos próximos dias, pra não querer fazer tudo alucinadamente temendo morrer e parar de ouvir na mente as frases de cama dela.

Estou com saudade. Peito em brasa, morna, porque depois de algum tempo toda brasa é morna. O que é uma verdadeira insanidade e injustiça. Eu tinha jurado pra todo mundo que nunca deixaria a brasa destruidora abrandar. Mas fugiu ao meu controle. Quando vi, já tinha se passado algum tempo, o vento várias vezes, os cabelos, o tédio de um segundo. Tudo virou objeto de um passado recente, mas ainda assim passado. O significado do presente mudou. O significado do futuro é mais conformado, com o que quer que seja, desde que haja alguma paz. Alguma paz é muito pouco para alguém que há pouco queria tudo, no sentido amplo. Tudo de tudo com tudo, e mais. Mas é sempre assim, quanto mais se quer, mais se vai abaixo, e depois o que importa é o nível onde vai se equilibrar. Eu ainda não fiz esse trajeto, mas já estou nele. Onde vou parar é uma incógnita, talvez em alguma rodoviária do velho cerrado do oeste. Onde a coruja vira o pescoço. Onde a onça aparece. Onde eu vejo a floresta de frente e escuto o sangue daqueles homens que vivem dentro de mim e que já percorreram-na toda. Eles, às vezes, querem me fazer entrar lá. E é uma vontade insana porque eu mostro pra eles, com meus olhos, que não há mais floresta. Eles não aceitam, mesmo vendo, embora pareça que não enxergam.

O fato é que para eles não é nada fácil ver algo que não existe, ou pelo menos não existia para eles.

domingo, 9 de outubro de 2011

Amanda e o gosto de geladeira na boca

Olho dentro dos olhos dela e vejo a cor do universo. Sentir-me fora do caminho. Sou um pedaço de qualqur coisa jogada pelo tempo-espaço. Sem movimento, agindo estaticamente, agindo em si, consumindo-se. Um puro desperdício. Um puro desrespeito com a verdade. Saber que há tanto a ser feito, tanto mundo a ser vivido, tantas bocas a serem assopradas com beijos de tempestade. Todas as vezes são a primeira vez. Ela poderia me levar pra todos os lados, mas eu é que teria de levá-la. Porque as vestimentas não são adequadas, o rosto pálido não encontra expressão, os dias não têm razão. Tudo é tão morno, tudo é tão mediocremente cômodo. Eu lembro dela, uma pele lisa e bem tratada, fez-me lembrar dos dias de algodão. Olhar dentro dos olhos dela e não me ver causa dor. Eu queria estar lá, como eu queria estar em toda parte. Por que é tão difícil saber o que se deve fazer? Mentir, enganar, sabotar o tempo todo? Até quando? Até que dia? E o que é pior, tudo isso pra mim mesmo. A maior autossabotagem é não conseguir se ver, mas não é intencional! Eu quero ver! Eu quero olhar pra dentro de mim como olho pra dentro dela; quero ver em mim o eu que não vejo nela; mas não consigo! Se fosse fácil, faria e seria, em vez de estar. Um tema caro para mim e as discussões. Ser é diferente de estar, porque um implica o outro, mas o outro pode não ter nada a ver com um. Os olhos dela têm o brilho do universo inteiro, uma cor impressionante, porque não têm cor, não são azuis, nem verdes, nem castanhos-claro ou escuro, nem pretos, são cor-de-olho e só isso, cor do universo, cor do mundo inteiro feitos só para mim, para que tente enxergar o que não vejo em lugar nenhum.

Tempestade na floresta, no mundo inteiro. Um choro vazio e discreto. Um choro que doi porque escorre pra dentro. Um choro do meio. Um choro sem fim. Um desespero infinito que só é aplacado quando olho dentro dos olhos dela, porque troca. Quando olho dentro dos olhos dela e não me vejo, sinto o desespero da possibilidade de perdê-la, ou o que é mais desesperador ainda, a possibilidade de nunca tê-la tido; mas como, se ela está comigo e sempre esteve? Não sei, não estou tão certo disso. A insegurança é um veneno que racha a cor dos dias. Não dá pra saber nunca, mesmo sempre sabendo. Sei que ela está comigo, mas queria algo mais, queria que ela me fosse ou que eu fosse ela. Queria ser com ela; queria o que o impossível não consegue fazer por mim.

É muito fácil não saber onde estar ou onde se quer estar. Difícil é entender os porquês; eles são tão possíveis. Estão todos aí, dispostos, colocados numa ordem totalmente relativa, de modo que podemos usá-los como quisermos, se é que queremos. O mais sagaz não usa porquê nenhum, só faz; determina e aceita tudo integralmente, como tem que ser. O tempo não é universal, porque se fosse o meu não seria tão diferente. Não que esteja sendo egoísta, é só que o tempo passa diferente para mim, perco-o muito mais fazendo projeções do que vivendo-o. Quem sabe que as luzes se foram? Sem luz não fazemos nada, nem pão-de-queijo. Não dá pra brincar de abrir latas. O homem universal, sem tempo dado, sem momento específico, faz o que quer, quando quer. O homem universal, sem tempo, não pensa no passado, nem no futuro, vive só agora, como se no próximo segundo já fosse morrer, e tudo o que faz baseia-se nesta lógica, a da morte, e, portanto, é necessário não perder nenhum tempo, mas viver o tempo do tempo, como um homem universal, sem tempo. Eu não consigo ser um homem universal sem tempo.

Eu quero fazer tantas coisas, que não consigo imaginar nenhuma. Todas elas se amontoam, em vez de estarem dispostas em alguma ordem. Eu queria que elas estivessem em alguma ordem, mesmo que eu não a compreendesse. Sair de um quarto, viajar o mundo, buscar aprender alguma coisa todos os dias, e todos os dias ganhar o dinheiro necessário para comer, como um prisioneiro livre. O prisioneiro livre busca o fim do mundo, mas não fim no sentido de final, mas de finalidade. Qual é o objetivo do mundo? Qual é o meu objetivo? O nosso não me interessa, só o meu. O prisioneiro livre vaga pelo mundo, trabalha como catador de lixo, estivador, marinheiro, piloto de helicóptero, tripulante de transatlântico; e assim, sem pressa, ele cruza todos os cantos do planeta em busca da liberdade de ser livre. Ser livre é a maior prisão possível, porque não se tem por que lutar. Diferente de quando não se tem liberdade, ao menos tem uma luta, um objetivo. Dependendo de como você pensa, você nunca tem liberdade, por isso vai continuar sempre lutando por mais e mais; mas para alguns, atinge-se a liberdade plena, e a vida torna-se um saco sem fim. É fácil não ter escolha, por isso ouvimos todos dias grandes homens dizerem: "fiz o que tinha que ser feito", claro, ele não perdeu nenhum tempo avaliando outras possibilidades, nunca supôs o sim ou o não, as opções mais elementares de qualquer situação. Para eles, só havia fazer o que foi feito, mesmo quando o feito é grandioso, foi fácil, pois só tinha aquilo pra ser feito. O problema vira sua cara quando há possibilidades, que começam no dilema entre o sim e o não e que, após esse embate inicial, adquire complexidade e formato, muitas vezes, intoleráveis. É fácil não ter opção ou liberdade, difícil é tê-los e ter que escolher. A mão da liberdade que repousa em seu ombro na hora de decidir qual caminho tomar é pesadíssima, senhores, pesadíssima.

Amanda é uma mulher doce, mas tão doce, que nem sei se existe de verdade. Ela veio aqui, me disse meia dúzia de coisas e não disse um milhão. O fato de ela não ter dito um milhão de coisas mudou tudo. Ela é assim, alguém que não diz um milhão de coisas porque sabe que não são necessárias. Com meia dúzia, já conseguiu minha confiança de colocá-la próxima a mim. Mas tudo parece tão doce, que o veneno da insegurança contamina. Há uma descrença eterna e renitente que não se cansa de querer contradizer a realidade, doce ou singela. Por que nada pode ser simples o suficiente para ser? Porque o veneno não deixa.
Eu quero Amanda e Amanda me quer, e assim vamos nos querendo pra sempre sem desistir de ser o que tiver que ser; mas o espaço vazio vai sempre existir, pelo menos enquanto eu for assim. Como o gosto de talco, como o perfume de maçã e madeira, como a geladeira fria da madrugada. A geladeira fria pode abrigar monstros terríveis como o álcool na madrugada insone. Mas a geladeira fria pode ser só mais uma farsa deste mundo doido, pra tentar me convencer de que ele não liga muito pro que eu digo, o que não é verdade. A geladeira fria abriga um doce, tão doce como uma amora. Aquela de aspecto vermelho escuro, mas que por dentro tem uma encarnação viva e emocionante. Me dá prazer morder uma amora, abri-la, vê-la por dentro, toda, antes de comer. É como abrir e comer Amanda, por dentro e por fora, vendo suas cores. É quando ela está mais exposta a mim, mais crua, mais sensível, mais de verdade do que nunca. E nesse momento, ela não precisa dizer nem a meia dúzia de palavras que me conquistaram, mas ela pode não dizer nada porque tudo já está sendo dito.

O vermelho encarnado de Amanda por dentro é o vermelho mais vivo, bonito e emocionante que já vi. Um grande romance. Um grande poema épico. Uma tragédia inteira, com todos os atos necessários para satisfazer aos mais diversos gêneros. Amanda por Amanda, que ri, sofre, sente, chora, isola-se, retorna, está aqui, mas está lá, longe e aqui, ri de novo e me faz rir, me acorda de madrugada com medo, depois passa, dorme de novo, eu não consigo dormir mais, mas ela sim, fica bêbada, diz besteira, dou mais risada, ela  sabe se divertir, bebe demais, cai no chão, eu também, às vezes sou eu quem a carrega, às vezes sou eu, podemos estar doentes de alcoolismo, podemos estar doentes da vida inteira, podemos estar doentes por não ter nenhuma doença, podemos estar doentes de saúde, ou doentes de saudade. Uma saudade que já não se sente porque não se deveria sentir. Uma saudade oca, saudade de ter saudade; saudade de amar loucamente; saudade de ser um só, inteiro e uno, feito à verdade e à integralidade. O universo sabe o que está fazendo conosco, Amanda, mas você precisa dizer a ele para mudar a disposição de fazer. Talvez menos nos baste.

domingo, 21 de agosto de 2011

O amor indiferente.

Foi dizendo que descobri quem me acompanhava. Foi inteirando-a que soube com quem eu lidava em mim mesmo. Uma sacola plástica sufoca quatro mil pensamentos, mas uma camisa de força sufoca uma vida inteira. Ela sentada ao meu lado, com as mãos uma sobre a outra. O cabelo caía pelo rosto incomodando. A posição era confortável e ela jamais se atreveria a arrumá-lo. Eu queria que ela se visse e fui dizer a ela como ela estava. Continuou indiferente. Sempre me fora assim. Que tipo de amor se mistura à indiferença. Que tipo de escravo mantém sua devoção ungida face ao maior crime de todos os tempos que é a indiferença. Eu. Ela. Um e outro. No bar as coisas se revelam. No dia seguinte elas impressionam. Ninguém vê o que todos querem ver. Mas ninguém vê não porque não pode, mas porque não quer. Junto minhas mãos ao redor dela pra ver se consigo viver em paz. Ela deixa, não importa, e faz um brinde à indiferença. Sobreviver é muito difícil nesses tempos de amor indiferente. Prefiro a loucura do amor doido, doído. Aquele que esteriliza todas as possibilidades de ter outros pensamentos, senão ela. Ele faz querer que ela viva todas as coisas por mim e comigo. É difícil sentar, esperar e ouvir. O que ela quer ser não serve justamente porque ela não sabe ser. Amar é bom e amar demais faz sofrer. Mas amar de menos faz sofrer mais ainda. Se se ama, se ama! Não se pode amar sem amar. Doer sem machucar. Gritar sem voz. Correr sem perna. Não se pode. Nem aqui nem longe. Nem nas estradas infinitas que me levam a qualquer lugar menos aonde eu gostaria de ir. Isso é porque elas, as estradas, não querem que eu chegue nunca aonde eu quero ir. Não querem que eu pare de viajá-las. E assim o tempo passa e andamos mais 942 milhões de quilômetros todos os anos, parados, sem querer. Uma paz invade a alma quando se pensa que mesmo parado andamos tudo isso, e a 107 mil quilômetros por hora. Vale a pena correr tanto, portanto. Não sei mais até porque não sei se aquelas mãos vão ser meu par. Dançar a noite toda, juntos. Indo embora sempre pra dar mais uma volta ao sol. Sangrando, sendo puxado pra baixo pela gravidade, com o couro esticando, enrugando, e a vida murchando para dar espaço a outras vidas. Se dessa vez pelo menos ela fosse embora, sem indiferença e não demorasse a voltar pra curar a dor. Eu ficaria contente. Não precisaria mais de tantas coisas e apetrechos pra fazer minha casa mais parecida com a natureza. E o bote salva-vidas continuaria remando em busca de vidas a salvar. A roda gigante continuaria rodando e se gastando. Eu preciso de todo o cuidado do mundo, e não da indiferença. Eu respeito o mundo, a liberdade, quem eu sou e quem ela é. E parece que ela não sabe. Não é tão simples fazer as coisas boas até porque elas não existem! Preciso inventar. O estrago. O buraco. O escândalo. As mãos. Tudo me faz pensar nas mãos! Só mãos, dedos, unhas, palmas e almofadas de mão sabem dizer alguma coisa sobre ela, que não diz, que não decide o que é bom de acordo com a previsão. Seria eu o que eu escolhi ser? E mais, a ponto de aceitar?

domingo, 19 de junho de 2011

Nenhuma tragédia é tão bela quanto o amanhecer do dia

Fazer o amor e ver o sol nascer e depois se por. Perder o fio do tempo, o sentido do sereno caindo. É lindo de morrer ver o dia nascer com os braços latejando, a alma em frangalhos por causa das sensações. O céu do sertão me traz imensa saudade, na imagem, na mente, na vontade de que ele se materialize novamente. Aquela coisa do sol engolir o rio ou o rio embolar com o sol. A madrugada tem tanto amor. É amor descabido que vira vazio. Amor demais faz o saco murchar. Murcha como bola ao sol. Porque o sol é tão forte e bonito que enche, enche, enche e depois esvazia pra encher de novo. Quem só quer amor e mais nada quer tudo. Porque tudo é o que não cabe em lugar nenhum. Presença do tudo junto com nada, tanto faz, são tantos instantes. Um dia a consciência surge e chupa sua cabeça, presença, verdade e histerias. Você fica paralisado. Vendo o verde em tudo. Igual aquele preto que você vê quando fecha os olhos. Mas não, quando a consciência surge e chupa sua presença você vê verde. Tudo verde, coagulado, como se o sangue da natureza, das árvores, das veias abertas da terra, rasgadas, estivessem coagulando. E você vê. Vê e chora. Chora porque vê, chora porque sente, chora porque é e porque não queria que assim fosse. Às vezes ver não é bom. Mas é, é sim! É bom, melhor ver, ver tudo, e doer junto com o mundo, sentir com ele, ouvir sua pulsação, a respiração ofegante, meio cansada, cambaleante. E assim ouve o coração dele ser rasgado de fora a fora. Mas pra que se tudo é conserto, regeneração. A guerra rasga os homens. A dor mumifica. A verdade transtorna. Quase todo o prazer que queremos é perturbador. Mas mais perturbador ainda é pensar o tamanho do prazer que podemos ter se ao menos conseguíssemos renunciar ao prazer pequeno. Mas o prazer pequeno é um gosto tão gostoso. Ah, dilúvio, ah aleluia, ah sabão de côco, ah cheiro de cabelo de mulher, ah sal do mar na boca, ah vento na testa, ah música. Acho que de agora em diante só quero saber do  meu gosto, e não mais do gosto dos outros que sempre gostei. É a lua que vira e faz o mar da terra virar.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

É.

Era só um pedaço de carne crua. Mas doía tanto que nem parecia de verdade. Uma mentira passada pra trás pelo tempo. Um doce azedo. Uma coalhada branca despedaçada com calçadas recortadas. Mas eu só sei das vezes que tentei ser, em vez de estar. Todas resultaram em grande tragédia, física e pateticamente emocional. Som, sim, pois tudo o que é emocional é patético e tudo o que é patético e desprezível é beligerante. Mata. Come. Atropela.

Como ele disse um dia que se fosse pra atropelar, ele atropelaria. E eu disse que não. Eu não atropelaria. Faria o que fosse mais conveniente. Passar por cima não é atropelar, é somente buzinar e não frear, sabe?!

Fazer o quê se as agruras do amor consomem os dias, as noites, as tardes, as manhãs, os desejos, os desesperos. Eu pelo menos tenho noção plena de que sou ridículo, patético, desesperadamente translúcido, não falo o que vejo e não vejo o que falo na mesma medida em que minto e monto bois. Ele não, acha que sabe muito, que pode falar e se opor pelo mero exercício, e pra isso tira do inferno, ou do cu, argumentos sebosos e amebiasíticos para expor como quem expõe a grandeza. O pior é que eu também sou, sou exatamente assim, faço exatamente isso. A diferença é que, como estou fazendo agora, faço sempre, admito, reconheço, sou um ser da mais alta pateticidade. Ele não! Fala a mesma idiotice, mas com autoridade, se acha. E é ridículo porque não convence ninguém, nem as toupeiras, mas enche o peito pra falar o quanto sou patético por agir como ele. E como ele não sendo como ele, mas que nem ele.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Pássaros loucos longe do ninho

A identidade de Alexia era forte demais para suportar a fraqueza de Pedro. Sentiam-se vivos como os candelabros de um jantar ao ar livre. Mas não sabiam até onde ir. Tinham medo do escuro que é o dia depois do primeiro encontro. Passear por toda a cidade, de mãos dadas, visitar orquídeas, museus e palácios, tomar sorvete, ver filmes e ouvir discos ao vivo. Tudo não passa de efemeridades. Um momento no qual se perdem os laços entre a vida e a vida real. Elas não dialogam, as duas vidas.

Alexia passa os dedos por entre os cabelos. Não pensa em nada a não ser surpreender. De repente quer dizer algo que não sirva pra nada. Algo assim, do além e desinteressado pra ninguém. Lembra de como é bom ter alguém pra trocar mensagens de celular na madrugada, na manhã de um dia cheio, na noite que chove e o céu fica vermelho de vergonha. Fala ao telefone silêncios de meia hora. Fala palavras como quem dedilha um piano, tecla por tecla, sílaba por sílaba. O nexo se encaixa depois como o mel que adoça o café forte amargo das tardes de trabalho. É tão bom. Mas tão bom. Tão bom que nem parece que vai usar aquele café pra trabalhar depois.

Eu sei que você quer ficar comigo pra sempre, pensa Alexia, mas se você disser, vai estragar tudo. Nada como se enterrar na masmorra pra esperar o tempo passar e ver que ele de fato não volta. O tempo não volta, mas as pessoas voltam, assim como Pedro voltou para Alexia depois de anos de esquecimento. E assim como Alexia voltou para Pedro quando já imaginava nem mais lembrar-se dele. Sim, um se lembra do outro, e quando se viram não houve dúvida. Nenhuma. Foi tão bonito. Mas tão bonito que eu queria ter visto. Os olhos dois devem ter brilhado.

Seria naquele dia, um sábado qualquer do inverno. Um inverno cinza, cheio de roupa escura glamorosa. Com passeios programados e um suco de amora azeda pra ser tomado. Um dia como todos os outros que têm fim. Eles dariam o beijo que nunca foi dado do amor que sempre existiu. Um romance que os levava a fugir e se esconder. Sem saber de que. Somente sabiam que tinham que fugir pra algum lugar onde fosse deles. Só deles. Fugindo em busca do lugar eles nunca mais se viram. Até ontem. O dia do beijo nunca dado do amor que sempre existiu.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Madrugada na rua.

Saí descalço pela rua. Madrugada quente, úmida, abafada. Mas eu não sentia entre os dedos dos pés as pedrinhas que insistiam em me machucar. Idealizando vidas, mulheres, momentos, eternas situações de gosto para combater o desgosto que era estar. Nunca se é se não se sabe estar. Mas estar onde? Como já disse e já ouvi um dia, é preciso saber estar. Nunca sei. Nunca soube. Sempre quis saber. Por isso idealizo. Sonho que sei. É difícil caminhar pela cidade vazia, quente, úmida, numa madrugada sem sentido. Em busca de sentido todos nós nos perdemos um dia, ou todos os dias. Não é possível se encontrar sem se perder. Os caminhos são tortos para que saibamos que fizemos escolhas erradas. Se todos os caminhos fossem retos, sempre acharíamos que tínhamos feito a escolha certa. E o certo, meu amigo, eu mesmo, não existe. É difícil chegar às seis da manhã, hora tarde, ou cedo, não é? E descobrir que sempre se viveu na ilusão da busca por ideais. Os ideais não existem. A mulher ideal não vai aparecer na porta pedindo socorro pra não suicidar. A vida ideal é a que não temos. Quem quer ter? Acho que ninguém. A vida ideal custa muito caro. Não se pode ser assim.

Viajar só pra ir. Não importando aonde. É o que desejo. É o que sinto. Forte como o gosto de vinagre vencido, puro engano. Vinagre não é mais vinagre se está vencido, engodo trágico dos deuses. Os caminhos perdidos levam invariavelmente à tragédia, por isso preciso recobrar a consciência e sair do mundo fantástico. O mundo ideal, onde eu sou possível com todas as desvirtudes que me compõem. Não sou possível. Preciso entender isso de uma vez por todas. Ou eu me torno possível ou vou ser morto, fuzilado, afogado neste mundo real impossível pra alguém com as desvirtudes que tenho. Mas aí entra novamente a força do ideal: a transformação. O próximo ideal é transformar-me. Novamente é ideal. Nem no mundo real nem no ideal posso ser e estar. Onde então? Onde eu sou possível? Na floresta? No alto da montanha? Numa casa podre na beira do lago? Numa casa de papelão debaixo do viaduto? Não sei se sou possível, tampouco onde seria. Vencido. Expirado. O alimento deve ser retirado da prateleira e descartado para incineração sob perigo de propagar bactérias ultra-resistentes. 

Ir e não voltar é um exercício que deve ser praticado com mais frequência. Mudanças produzem efeitos que não se sabe. Melhor viver com o que não se sabe do que com o que se sabe que é uma merda. Viver de improviso. Voando na bolha de sabão que pode estourar. Mas pode subir se alguém assoprar. Ele não tem mais reserva de ego para ser rejeitado. Ele disse isso. Será que também vive numa bolha do mundo ideal? Não poder ser rejeitado e não ter reservas à rejeição é ser possível? A possibilidade é o que me espanta mais. Quando se quer muito, não se pode. É a dura verdade. Está mais uma vez perdido quem rejeita  se antecipando à rejeição.

Uma noite quente, úmida e abafada possui vários personagens. A barata que caminha por acaso na calçada. Um rato que passa pela sarjeta. Os mendigos cobertos de papelão embaixo da marquise das lojas, escorados na porta de ferro rolante. Os taxistas que passam e oferecem um passeio. Não, não quero, estou bem à pé. O bêbado que anda trombando nas placas, postes e lixeiras. O fodido de fome que revira lixo, junto com cães. Quem é mais fodido? O cão ou o fodido? Quem é mais possível? Acho que se respondesse a uma das perguntas saberia todas as respostas. Há também pessoas impossíveis que só andam na madrugada como eu. Vão pro trabalho, voltam dele, andam à toa, vão para festas, voltam delas, vão para a casa dos amantes, voltam de lá. A rua é bonita. E só se pode entendê-la na madrugada. Durante o dia não. O sol faz as pessoas pensarem que têm que fazer alguma coisa. A lua não. A luz da lua ou a luz da noite diz pras pessoas ficarem à vontade. E durante o sol, mesmo quem não tem nada pra fazer, alucina e faz alguma coisa. À noite as pessoas fazem o que querem. Drogam-se, bebem, fazem amor, passeiam pela rua sem sentido, dançam, ouvem música, assistem a filmes emocionantes, criam fantasias, idealizam suas vidas.